29/05/2020 às 10h19min - Atualizada em 29/05/2020 às 10h19min

Verborragia

WILLIAM H. STUTZ
“O homem tem medo de sua espontaneidade. Seus antepassados da selva temiam o fogo: temeram o fogo até que aprenderam a acendê-lo. Do mesmo modo, o homem temerá viver apelando à sua espontaneidade até que aprenda a provocá-la e a educá-la.” (Jacob Levy Moreno)

Está certo, entreguei os pontos, joguei a toalha, chutei o balde. Não dá para concorrer com os únicos dois assuntos dos últimos tempos: Covid 19 e bate-boca entre fanáticos amantes de Bolsonaro e seguidores ardorosos (as) de Lula, cada dia um mais agressivo do que o outro. Não, pelo amor de Deus, o uso da palavra seguidor (a) não é depreciativo. Uso-a apenas para expressar o que se passa. Tenho minhas convicções e delas não abro mão. Sou absolutamente contrário ao (des)governo que estamos atravessando. Não passa um dia sem uma bobagem maior do que a outra do mandatário de plantão, com seus rompantes de botequim, ou de seus tresloucados seguidores. Do outro lado, um pouco mais polidos, articulados, muitos quixotescos românticos, que admiro profundamente, às vezes também apelam para baixarias. Pronto, a briga está formada.

Eu sei, não tem como defender essa gente no poder. Não há como levar a sério pessoas do naipe de Olavo de Carvalho, o autoproclamado filósofo e guru do presidente. Recuso-me a usar seu nome duas vezes no mesmo texto e, se me permitem, prefiro tratá-lo por Valdemort. Isto explicaria sua aversão às máscaras, pois aquele personagem da saga de Harry Potter não tem nariz, uai. Não dá para acreditar. Por sua vez os do outro lado também são na maioria facciosos e não aceitam nada que não reze a sua cartilha, cansativo também. Tudo que gera zelo excessivo é extremante ponto de gerar violência é inadmissível e entediante. Ouvidos mudos.

Já sei que vou levar porrada de todos os lados. Esquento não, pois me sinto blindado. Como disse, não aguento mais essa briga eterna de torcidas apaixonadas por demais. Exemplo? A abordagem pouco científica em torno de uma doença cataclísmica para ser raso em detalhes. Resultado, me fiz aberto a uma catarse. Pode escolher o sentido filosófico ou psicanalítico dessa palavra, pois na real é uma mistura das duas. Em dúvida? Procure um bom dicionário. Sei que repito, mas para a grande maioria ler dói pra caramba. Pesquisar então, nem te falo.

Fruto do isolamento social, vamos nos voltando para dentro de nós mesmos e, ao mesmo tempo, caçando motivos ou sentido para tamanha solidão. A política castradora e a pandemia, ambas apocalíticas e enlouquecedoras, se deixarmos. Custei a domar meus impulsos e cortar o bate-boca sobre tais assuntos, por sinal os únicos ultimamente. Mas o conter teve um preço e algumas vezes alto. Perdi amigos, amigos não, conhecidos. Os amigos não se digladiam por pouco. Discordamos em muitos pontos, mas cada um carrega seu fardo pensar e seguimos fraternos. Agora, com muitos dos tais conhecidos, aqueles que querem impor suas idéias, por mais medievais que sejam, à força de gritos e palavrões, estes foram calados por um simples apertar de botão. Não lhes dou o direito. Nunca.

A verdade é que fiquei mais leve depois que assumi a máxima da máxima Zen, em pequeno diálogo entre mestre e discípulo:

- Mestre qual o segredo da sabedoria?
- Não discutir com idiotas.
- Não concordo que este seja o segredo...
- Você tem razão!

Posso lhes garantir, minha vida mudou da água para o vinho. Claro, não se aprende a simplesmente escutar de uma hora para a outra. É um exercício constante, principalmente quando se trata de besteirol dito, mas quando se chega a este ponto, te conto, é o céu.

E o que grita, gesticula, fala alto? Este é o mais engraçado e fácil de conviver. Você se coloca no modo avião, relaxa os músculos da face, veste um meio sorriso de paisagem e balança ligeiramente a cabeça em movimento afirmativo. É uma viagem, pois enquanto palavras ininteligíveis aparecem em revoadas cada vez mais densas, você vê luzes, florestas, sua cabeça entoa belas canções. Sim, uma viagem. Só tome cuidado para o outro não lhe perguntar se concorda, pois aí meu amigo, minha amiga, cada qual cria seu jeito de sair dessa saia justa. Sempre tem jeito. Não se aflija, porque na realidade os especialistas em verborragia não querem sua opinião mesmo. Outros só querem lhe irritar, mas isso só acontece se você deixar. Eles são menores, não perca seu valioso tempo com gente assim.

É isso, como sempre digo: Tem dia que de noite é assim.

Começo e fecho com Jacob Levy Moreno, minha leitura de eleição para tempos de guerra como os que estamos vivendo. “O homem é um ator de Deus no palco do Universo”. Mas bem que poderia ser Antônio Carlos e Jocafi: “Mudei de ideia/ vou rifar meu violão/ Mudei de ideia/ manias do coração”. Por que não?

Ótimo fim de semana!



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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