23/05/2020 às 10h13min - Atualizada em 23/05/2020 às 10h13min

A polêmica da Hidroxicloroquina no tratamento da Covid

JOÃO LUCAS O'OCONNELL
A discussão sobre as possibilidades de tratamento medicamentoso da infecção respiratória causada pelo novo coronavírus ganhou grande espaço nas mídias sociais e na imprensa oficial nas últimas semanas. Em especial, a discussão sobre o uso da Hidroxicloroquina extrapolou o ambiente médico e científico e foi lenha na fogueira do debate político polarizado, tanto no cenário nacional como no internacional.

A infecção pelo novo coronavírus (denominada de Covid-19) tem diferentes fases. Assim, as pesquisas são direcionadas para tentar encontrar um medicamento que possa ser útil em uma ou mais das diferentes fases da doença. Assim, vacinas foram desenvolvidas (e já têm sido testadas) para preparar o nosso sistema imunológico para reconhecer e impedir a entrada do vírus nas nossas células, dificultando assim a fase de contágio da doença (pode durar de 2 a 14 dias – 5, em geral). Outras medicações têm sido testadas para tentar impedir, ou ao menos dificultar, a fase de replicação do vírus em nosso organismo (predominante do primeiro ao 7º dia de sintomas). Alguns outros tratamentos têm sido utilizados na fase inflamatória (predominantemente pulmonar) e/ou trombótica (em geral, do 7º ao 12º dia de sintomas). Por fim, outras terapias têm sido testadas na fase de grave síndrome inflamatória pulmonar e sistêmica (que, em média, acontece após o 12º dia de sintomas).

Após meses de intenso estudo fisiopatológico e inúmeras pesquisas científicas, temos apenas uma certeza: apenas o sistema imunológico próprio do indivíduo é, hoje, capaz de clarear o vírus do organismo, modular uma resposta inflamatória adequada (e não exagerada) do nosso organismo contra o vírus e, com isso, nos curar da infecção sem maiores problemas. Para a nossa sorte, mais de 80% das pessoas conseguem fazer isso! Algumas estratégias terapêuticas, especialmente quando aplicadas na fase inflamatória da doença, também já se mostraram bastante úteis. Assim, o uso de oxigênio suplementar, a fisioterapia e a assistência ventilatória, o uso de anticoagulantes (Heparinas), antibióticos (quando indicados) e o suporte médico, de enfermagem, fisioterapia e nutricional são extremamente úteis e benéficos.

Já outras terapias propostas ainda são polêmicas por carecerem de uma comprovação científica de que sejam realmente eficazes. Dentre as mais discutidas estão o uso da associação Hidroxicloroquina / Azitromicina, dos Corticóides, de outros moduladores da resposta inflamatória (como o Tocilizumab) e outras medicações que parecem ser úteis “in vitro” como a Ivermectina, a Nitazoxanida e outras.

Baseados na boa capacidade antiviral da Hidroxicloroquina (quando confrontado com o vírus dentro de um tubo de ensaio) e da sua capacidade de modular adequadamente nossa resposta inflamatória a outras doenças (como o Lúpus e a Artrite Reumatóide), muitos cientistas passaram a defender o uso sistemático desta medicação como sendo um tratamento potencialmente muito benéfico e, eventualmente, revolucionário no tratamento da Covid-19. Esta proposta de tratamento potencialmente útil foi extremamente empolgante, especialmente para os políticos que queriam evitar grandes prejuízos à economia causados pela pandemia.

Entretanto, infelizmente, para a decepção de muitos (inclusive a minha), quando estudada de maneira adequada, em estudos científicos bem controlados e bem conduzidos, a Hidroxicloroquina não produziu (pelo menos nos trabalhos científicos publicados até aqui) nenhum resultado significativamente positivo. Em especial, a droga não parece ter qualquer benefício em pacientes que evoluem com as formas moderadas e graves da doença (aqueles que necessitam ser internados).

Assim, atualmente, a grande maioria das Sociedades Científicas nacionais (Infectologia, Reumatologia, Medicina Intensiva) e Internacionais (NIH, ESC) não recomendam o uso da Hidroxicloroquina para o tratamento da Covid-19. Vale destacar, por fim, que apesar dos resultados iniciais negativos, a ausência de benefícios da Hidroxicloroquina ainda não foi totalmente definida, uma vez que novas pesquisas ainda estão sendo conduzidas (muitas delas no Brasil) a fim de responder a questão em definitivo. Em especial, dúvidas permanecem em relação a um possível benefício do uso da droga bem no início dos sintomas respiratórios. Até lá, o uso da Hidroxicloroquina está muito mais para um chá da vovó para a gripe (aquele com alho, limão e mel) do que para uma terapia revolucionária. Alguns juram que faz bem! Mas, infelizmente, ninguém consegue provar.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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