09/05/2020 às 14h42min - Atualizada em 09/05/2020 às 14h42min

Um pequeno retrato da nossa sociedade

ALEXANDRE HENRY
Da porta da minha casa até a entrada do supermercado, são apenas duzentos metros. Mas, representam, certos dias, um pequeno retrato da sociedade brasileira quando acordo e vou comprar pão para o café da manhã.

Ainda no elevador, cruzo com várias empregadas domésticas chegando para o trabalho, inclusive na minha casa. Quem conhece a realidade de países desenvolvidos sabe que essa profissão, por lá, está praticamente extinta. A maioria das famílias, mesmo as de classe média, não consegue pagar uma pessoa para cuidar de casa todos os dias. No Brasil, pelo baixo custo da mão de obra e pela abundância de trabalhadores não especializados, ainda há muita gente trabalhando em serviços dessa natureza.

Abro o portão e dou de cara com um prédio sendo construído a todo vapor. Mesmo com a pandemia, as obras não pararam e seguem em ritmo acelerado, revelando que o Brasil ainda está em construção, mesmo que muita coisa já precise de uma boa reforma. Ainda somos um país de oportunidades em que há mais portas para a riqueza do que nas nações de economia já consolidada, mesmo que também existam muitas portas para se continuar na pobreza.

Sigo caminhando. Piso na calçada e vejo três lotes vagos próximos ao edifício em que moro, lotes que contam muito da falta de planejamento urbano no Brasil. Aqui, cidades são construídas sem qualquer projeto, áreas vagas ficam décadas esperando valorização perto do centro e bairros distantes são inaugurados de forma desordenada. Quanto aos três lotes vizinhos, até pouco tempo estavam sem cerca, sem calçada e cheios de mato. Acho que a prefeitura deu um jeito nisso, porque os proprietários não estão nem aí. Que se danem os cadeirantes que precisam de boas calçadas, que se danem os vizinhos que sofrem com os insetos, enfim, que se danem todos. O importante é o lote continuar ali sem uso, só valorizando. Esse é outro retrato do país: boa parte das classes economicamente mais privilegiadas só pensa no próprio umbigo, passando longe de qualquer compromisso comunitário.

Viro a esquina e quase tropeço na montanha de lixo fedorento que se espalha por lá. É que os moradores do prédio vizinho colocam seus dejetos na lixeira em qualquer dia e hora da semana, ao invés de só colocar na hora em que o caminhão do lixo vai passar. Resultado? Catadores de material reciclável e de restos de qualquer coisa aproveitável, inclusive para o estômago faminto, reviram os sacos de qualquer jeito, rasgando tudo e espalhando porcaria em um raio de cinco metros. Duas cenas no mesmo retrato: 1) o descaso com o coletivo por parte de quem tem uma situação melhor; 2) a gigantesca quantidade de pessoas que ainda precisa revirar lixos para sobreviver. No meu comportamento, uma terceira cena do Brasil: alguém consciente passando por ali todos os dias, mas nunca fazendo nada para mudar aquela situação, seja por inércia ou por não saber como agir.

Mais alguns passos e, do outro lado da rua, sob a marquise de uma igreja cristã, três moradores de rua ainda dormem sobre espumas encardidas. Calado, um senhor – que não é da igreja – desce de um carro de luxo e coloca, ao lado de cada maltrapilho, um copo de leite quente e um pão. Sim, ainda há gente de coração bom. Aquela cena me comove, mas logo outra realidade bate na minha cara: na entrada do supermercado, um homem ameaça agredir o funcionário da loja que não quer deixá-lo entrar sem máscara, por conta da pandemia e das regras da prefeitura. “Se essa bosta de supermercado quer que eu use essa porcaria, então que me dê uma!” – grita o sujeito. Chega então um segurança e o cara vai embora xingando, achando que ele está com a razão. E a saúde pública? E as demais pessoas? Que se danem, né? A lei, para a maioria dos brasileiros, serve para os outros, não para si mesmo.

Vou para a fila do pão, que é colocado nos sacos por cada consumidor. Vejo um sujeito colocando pão francês no saco e, disfarçadamente, colocando dois pães de queijo grandes também, que custam três vezes mais, mas que sairão pelo preço do pão francês. Na sequência, uma mulher faz o mesmo, mas dessa vez misturando pão normal com pão integral. Dois dos quatro consumidores ali dando o cano no estabelecimento.

Pego o pão e volto triste para casa. Não, eu não desisto do Brasil e sou daqueles que querem trabalhar cada vez mais para isso aqui, um dia, virar um lugar desenvolvido. Mas, que os retratos do país jogados na minha cara em uma simples caminhada para comprar pão me deixam um pouco desanimado, isso eu não posso negar.



Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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