08/05/2020 às 11h02min - Atualizada em 08/05/2020 às 11h02min

Tema inesgotável

CELSO MACHADO
Tem assuntos que por mais que a gente lembre e comente, sempre temos mais para abordar. Mãe é um deles.

Feliz de quem tem mãe para poder comemorar com ela o seu dia neste domingo. Melhor ainda conviver com ela sempre que possível. Seja presencialmente ou online.

Igualmente feliz quem tem recordações de mães que são inesquecíveis. Pelo que acalentaram, inspiraram, aconselharam, encaminharam e ... acariciaram.

Já se faz 19 anos que não tenho minha mãe comigo presencialmente, mas isso não encerrou nossa ligação. Rezo por ela toda a noite ao deitar e me pego, volta e meia relembrando de passagens que tivemos juntos que não passam, permanecem.

Uma delas foi a orientação do médico quando, aos 69 anos, foi acometida da mesma doença que vitimara meu pai. Sugeriu que seria melhor atenuar o tratamento, pois ela não teria muito tempo de vida e que teria o mesmo fim do meu pai que faleceu menos de 3 anos depois de tê-la contraído.

Relutei argumentando que como filho era minha obrigação usar todos os recursos possíveis; que um diagnóstico médico não sobrepunha ao da fé e da vontade de viver da minha mãe.

Ela teve mais 15 anos, não de sobrevida, mas de uma senhora vida. Viajou de avião, coisa que nunca havia feito. Voltou ao seu querido Portugal, viu nascer nossos filhos, seus netos queridos Taisa e Pedro. Viveu intensamente. Era nossa companhia em todos os domingos e quando ligava para convidá-la para um programa qualquer sempre aceitava de primeira. E quando íamos apanhá-la em sua casa, já estava esperando nos últimos degraus da escada para não perder tempo.

Quando teve início o tratamento com radioterapia no Rio de Janeiro me ligava falando do tanto que estava sofrendo e que só tinha uma coisa que ela não perdia, o apetite. Eu lia isso como vontade de viver.

Durante todo o período de seu tratamento nunca falamos sobre a doença que tinha. Ela, com toda certeza, não queria saber e nem eu comentar. Só teve uma vez, uma única vez que aconteceu algo que marcou muito. Estávamos na cozinha de sua casa quando num relance nossos olhares se cruzaram. Não trocamos nenhuma palavra, mas senti naquele momento que ela estava me transmitindo que sabia o que tinha e que eu também sabia. Não foi preciso dizer nada, bastou um olhar mais profundo e o recado foi dado e entendido.

Gostava de um vinho, mas companheira como era, renunciava a ele para compartilhar a cerveja comigo. Fazia um bacalhau delicioso. Um bife acebolado e uma salada de alface como poucos.

Nesse período, em que ela travou uma luta intensa com a doença, foi internada e operada várias vezes, sempre saia otimista e cheia de vida. Nada a abatia, nem a aborrecia.

Exatamente no seu último ano de vida, sem que estivesse programado nem nada acabei lhe dando um presente: fui promovido a diretor da Algar. Eu que entrara como office boy chegava a diretor de comunicação de um dos maiores grupos empresariais do Brasil. Isso a fez muito feliz e orgulhosa.

Em maio de 2001, praticamente 3 anos antes de sua morte, ainda foi comigo no lançamento da Feijoada do Praia, onde eu estava diretor social. Alegre e descontraída sua presença era sempre muito bem recebida nas diversas mesas pelas quais passávamos.
Faleceu no fatídico dia do ataque às torres gêmeas, 11 de setembro de 2001. Deixou e certamente levou boas lembranças.

Que baixinha encantadora, que lutadora incansável, que pessoa sábia sem ter estudos. Que mãe dessas para agradecer de joelhos por a termos tido. Um beijão dona Cacilda neste domingo das mães pela mãe tão especial que você foi e é...

Já escrevi tanto sobre você e me parece sempre tão pouco...


Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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