05/05/2020 às 14h33min - Atualizada em 05/05/2020 às 14h33min

Heróis na vida pública: ficção ou realidade?

ALINE ROMANI
Desde o mensalão, circula pela internet a narrativa do político ou juiz herói da nação, quem não se lembra do então ministro do STF Joaquim Barbosa que rendeu várias charges como Batman. Bolsonaro, além de ser chamado de mito, também é comparado a heróis de HQs, assim como o ex-ministro Moro. No mundo dos memes, gifs e figurinhas encontramos facilmente montagens com os super-heróis da Marvel e DC usando o rosto de políticos e juízes.

Entendo que os quadrinhos têm uma capacidade enorme de cativar várias gerações. Personagens famosos tornam-se tão grandes, que parecem ser conhecidos de todos nós. A figura do herói é exemplar, um tipo de personagem que dita comportamentos desde a Grécia antiga. Para Aristóteles é imperativo que o herói trágico seja nobre.

Heróis circulam nas bancas de jornais, nos cinemas e agora apropriados e ressignificados no mundo virtual. Eles ganham vida para além do domínio do cartunista que os criou. Quando um personagem é apropriado pelo público, sua narrativa não funciona como mero entretenimento, mas também como uma representação de sujeitos reais. O personagem define o sujeito na medida que o sujeito modifica o personagem, ficção e realidade se entrelaçam, embora continuem sendo rigorosamente diferentes.

Como toda obra, as HQs carregam influencias das vivências e sentimentos do contexto de quem as criou. Representam uma realidade. No entanto, representação não é sinônimo de espelho, ela deve ser encarada como parte daquela realidade que a compunha, construía e a transformava. Essa definição pressupõe que cultura não é algo estático, e considera a existência de um processo coletivo de construção, inclusive gerando e mantendo discursos de dominação. A cultura não é um elemento exterior a sociedade, que simplesmente completa qualquer ordem social, ela é elemento constitutivo dessa ordem. A cultura não é modo de vida, é processo que cria diferentes e específicos modos de vida, um campo no qual a sociedade, os indivíduos participam, elaborando seus símbolos e signos, suas práticas e seus valores.

Quando determinada cultura, obra, ou personagem é apropriado por um grupo, essa ação esvazia significados imprimidos pelo autor e enfatiza apenas o que interessa nessa relação. As apropriações geram novas representações que fazem referência ao real, ou seja, a algo vivido e compartilhado por meio de símbolos e expectativas. No entanto, quando vestimos sujeitos reais de heróis estamos mediando nossa visão de mundo a partir de uma representação. Neste caso não foi o sujeito que inspirou o herói, mas o herói é referência para o sujeito. O elemento ficcional define o imaginário.

Essa representação torna-se, para alguns, verdade. Não as verdades do acontecido, e sim as verdades do simbólico, expressas no imaginário de uma época. Faz parte de um campo de representação em que o pensamento se manifesta pelas imagens que vem à mente, atribuindo algum significado, ou seja, a imagem é transformada, ao evocá-la este significado reaparece mentalmente mesmo que o referente não esteja mais no campo visual. O imaginário constrói a compreensão do leitor, é ele que o aproxima ou o afasta do personagem, provoca medo, riso, ódio, desejo e vários outros sentimentos.

O problema dessa afetação é que ela permite interpretações subjetivas de fatos concretos, além de ser permissiva, porque atribui a essas pessoas superpoderes, que dentro da administração pública também pode ser chamado de autoritarismo. Ainda, quando vestimos um sujeito público de herói, atribuímos a eles todos os sentimentos despertados por esses personagens heróicos presentes num imaginário coletivo. No entanto, política e justiça não podem ser guiadas por paixões, amor ou ódio. Diferente das HQs, em uma democracia não pode haver alguém inquestionável.  



O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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