04/05/2020 às 08h47min - Atualizada em 04/05/2020 às 08h47min

Comida afetiva

ALICE GUSSONI
Divulgação/Marcel Gussoni
Desde criança tenho forte relação afetiva com a comida. Foi meu brinquedo, meu trabalho, meu colo e meu objeto de pesquisa. Percebi que o que ela faz por nós vai muito além de saciar a fome. Comida não é só pra ser comida.

Já contei aqui que escrevi, junto com meu companheiro e uma amiga, um livro sobre o tema. Por muitos anos cozinhamos em retiros em um centro de prática Zen Budista. Enquanto lavamos as folhas, meditamos. Ao picar e ferver, honramos. Ao servir a comida, doamos, recebemos, compartilhamos. Ao comê-la, nos nutrimos. Todo esse processo faz por nós muito mais que nos damos conta.

Desde o início dos tempos, tudo o que é vivo precisa de alimento. É nosso vínculo com a existência e um dos fatores essenciais para a sobrevivência. A comida conta histórias. Sacia, cura. Às vezes abraça, outras, repele; mas, com certeza, é sempre sinônimo de gratidão.

Começamos a investigar esse conhecimento e as mensagens que a comida vem nos transmitindo nas diferentes religiões e tradições culturais ao nosso redor. Nossa cultura gastronômica brasileira envolve tradições indígenas, imigrações italianas, alemãs, árabes, orientais e africanas. Preservar essas receitas é fortalecer nossas raízes.   

As ações que envolvem comida: o plantar, colher, cozinhar, compartilhar e comer, são, desde os tempos mais primitivos, os atos mais arraigados de transmissão oral de culturas, pois durante esses atos falamos sobre como nossos ancestrais semeavam, quais eram as técnicas para a colheita, de que forma aqueles alimentos eram cozidos, quais eram os costumes, a língua, e as histórias mais importantes para preservação da nossa memória.

São inúmeros os relatos de civilizações antigas que oferecem comidas a seus deuses. E até hoje, nos quatro cantos do mundo, em  diversas celebrações religiosas e manifestações culturais, continuamos sacralizando a comida, seja em um altar, uma oferenda, como uma forma de nos conectar com o “sagrado”.

De um simples almoço de família a uma complexa oferta à divindades, a comida não só promove a união entre os homens, mas os conecta íntima e essencialmente a algo sagrado, elevado, superior.

Se você fizer uma investigação na memória, perceberá quantos momentos importantes e decisivos foram vividos ao redor de uma mesa. E quanto de sua própria história viajando para trás na sua árvore genealógica, foi transmitida por receitas. E quantos foram os dias que você se sentia triste, ou doente, e recorreu ao comfort food.

Há quem diga que o melhor amigo do homem é o cachorro. Pra mim, sempre foi e sempre será a comida. Quando você olhar para seu prato hoje, experimente fazer um silencioso agradecimento por todo seu trajeto. A nuvem, a chuva, a semente, o agricultor, o cozinheiro, e reverencie como tudo aquilo chegou até você.

Então a receita de hoje é um nosso amigo de infância, mais confortável que um abraço. Mas nessa versão entraram alguns detalhes que o tornam mais saborosos que nunca.
  
Brigadeiro amargo com conhaque
 
INGREDIENTES
 
– 180g de chocolate meio-amargo
– 1 lata de leite condensado
– 1 colher (sopa) de manteiga
– 1 colher (sopa) de cacau em pó
– 2 colheres (sopa) de brandy/conhaque
– 1 colher rasa (sobremesa) de sal
 
PREPARO
Derreta o chocolate em banho-maria. Acrescente os outros ingredientes e cozinhe em fogo baixo sem parar de mexer. Quando a mistura começar a descolar do fundo cozinhe por mais 2 minutos e desligue. Lembrando que este tempo é para um brigadeiro de consistência mais mole, pra comer de colher. Agora é esperar esfriar e montar.



O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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