28/04/2020 às 09h13min - Atualizada em 28/04/2020 às 09h13min

“Emílio”: O Canhão dos Crosara

ANTÔNIO PEREIRA
Há alguns anos, numa visita feita ao Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, o dr. Rugles Crosara fotografou o velho canhão construído por sua família, que serviu à Revolução de 1930, na ponte Afonso Pena. Deram-lhe uma Ficha Cadastral com dados relativos à peça constando, nas Observações, ao pé da página, anotado a mão, o seguinte: “Feito em Juiz de Fora para equipar, em caráter emergencial, as tropas da revolução de 1930.”
Era uma inverdade e resolvi  recuperar a autoria do velho artefato e consegui.
Aquele canhão foi construído na oficina dos Crosara, à avenida João Pessoa. Depois de desativado, esteve da inauguração de um Museu em Belo Horizonte, na reabertura do Museu do Ypiranga, em São Paulo e foi parar em Juiz de Fora. O que a memória popular guardou sobre esse canhão, é que teria sido construído sob as ordens de um alemão, Otto, veterano da Guerra Mundial  de 1914. Mas, não foi bem assim. O Otto trabalhava na Casa de Saúde do dr. Diógenes de Magalhães, à avenida João Pinheiro. Estourada a Revolução de 1930, assumiram as forças regionais sediadas em Uberlândia, o capitão José Persilva, na parte militar, e o Senador Camilo Chaves, na parte civil.
Necessitando reforçar as defesas do território mineiro à altura da ponte Afonso Pena, o major Persilva e o Otto, foram à oficina dos Crosara e requisitaram seus trabalhos para a construção de um canhão idealizado pelo alemão. O canhão funcionaria como um estilingue. Sobre uma base fixa assentariam uma mola metálica que seria puxada para trás e presa num gancho. Colocariam nessa extremidade uma bomba. Solto o gancho a mola seria impulsionada e lançaria o petardo à distância.
O dono da oficina era o Cesário Crosara (pai) que chamou o filho Pacífico para acompanhar a descrição do canhão. Pacífico fez um muxoxo de desaprovação:
- Isso não vai dar certo.
Mas atendendo o pai, construiu a peça.
O Pacífico nem quis ver o teste dizendo que não acreditava naquilo. O teste foi nos altos da Vila Martins (ainda não urbanizada totalmente), próximo ao poço do Clarimundo Carneiro. O canhão funcionou, mas jogou a bomba apenas a uns 25 metros. E o pior, que ninguém previra: matou uma vaca cujo dono ficou danado da vida.
De volta às oficinas, o alemão e o Cesário discutiam um meio de melhorar a peça. O Pacífico só escutava, encostado num poste de luz.  Dizendo que a Alemanha já usara daqueles canhões com sucesso, Otto sugeriu que se colocasse mais uma mola. Foi quando o Pacífico teve o estalo. Estava encostado num poste o que lhe deu uma ideia.
- Eu faço um canhão que vai dar certo. Vocês me arranjem um poste de luz, mas tem que ser novo. Eu serro ele no meio, meto dentro de um tubo de oxigênio... etc... etc...
E fez. Encheu o vazio entre os dois tubos de estanho para amortecer as pancadas. Aproveitou a base do canhão do alemão onde pôs um apoio escalonado para assentar a peça e direcionar o tiro. Ainda houve um confronto entre o Otto e o Pacífico. Pacífico queria colocar gatilho e carregar pela culatra, o alemão queria por pavio e carregar pela boca. Ganhou o alemão, mas a forma foi a proposta pelo Pacífico. E as bombas? As bombas foram feitas com latas de soda cáustica e de azeitonas. Dentro punham pólvora, cacos de ferro, cimento, dinamite, pregos, pelotas de chumbo etc. A meninada é que catava as latas e ajuntava as sucatas.
Levaram o artefato com um carregamento de “bombas” num caminhão para a ponte Afonso Pena onde foi usado. Mas antes deram um passeio pela avenida Afonso Pena, com banda de música, foguetes e tudo. Os soldados colocaram-lhe o nome carinhoso de “Emílio”.
Deram uns tiros com ele o que assustou bastante a tropa goiana.
Essa é a verdadeira história do nosso canhão que não tem nada a ver com Juiz de Fora. Quando esta crônica foi publicada pela primeira vez, ainda estavam vivos o Pacífico que a confirmou e dona Chiquinha Garcia, teatróloga pioneira, que ajudou a catar latas vazias para fazer as bombas.
 
Fontes: revista “A Nação Brasileira”, de dezembro de 1931, RJ, Ceres de Alvim Carneiro, Jornal da Revolução, Chiquinha Garcia, Pacífico Crosara  e Rugles Crosara.
 
Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

 
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