23/04/2020 às 09h27min - Atualizada em 23/04/2020 às 09h27min

Conhecimento

IVONE ASSIS
Brasil, um país de poetas, esta é a temática de um projeto literário que vem sendo aplicado de Uberlândia para todos os brasileiros, em todo o mundo, nestes dias de jornada reduzida de trabalho. Consiste em o poeta responder a um grupo padrão de meia dúzia de perguntas e concluir com um poema autoral. Lendo os folhetins, observei que há uma pergunta cuja resposta dos participantes é praticamente a mesma: “Gostaria que a poesia, no Brasil, fosse mais valorizada, mais reconhecida culturalmente”. É interessante ler isso, porque esses poetas são profissionais das mais diversas áreas e lugares, contudo, há um desejo comum, ainda que não se conheçam. Isso deixa muito evidente que o que falta não são escritores, bons poemas, ou leitores, e sim, incentivos e promoções da poesia, em busca de público ouvinte. Isso mesmo, ouvinte-espectador, como acontece na copa mundial, por exemplo. Isso demanda muita competência. Que patrocinadores teriam coragem e cultura para algo desse porte?
Uma coisa assim é quase que pedir para que aconteça um milagre. Lembro-me do poema “O milagre”, de Mário Quintana, que diz: “Dias maravilhosos em que os jornais vêm cheios de poesia... e do lábio do amigo brotam palavras de eterno encanto... Dias mágicos... em que os burgueses espiam, através das vidraças dos escritórios, a graça gratuita das nuvens...”. De um lado, Hermes Aquino compôs: “Eu (a poesia) sou nuvem passageira, que com o vento se vai”, do outro, Quintana insiste que as nuvens são eternas. Ambos estão certos, a poesia é de escrita ligeira (passageira), ao mesmo tempo em que é eterna em sua significação. A poesia é quase um aroma que, em seu ápice, vem forte, irresistível, entra pelas narinas de quem a aguarda, invade o pensamento, e desaparece (ou eterniza-se). Tudo depende do comportamento, se “ocupado constante”, o sujeito pode ouvir. Poucos são os agraciados com o dom de memória auditiva (ou seria memória olfativa?), visto que a poesia se impregna pelo “cheiro”.       
Tenho visto a poesia como as ondas do mar. Constante e maravilhosa, mas de curta duração. Não se fixa na praia, porque é de sua natureza ser breve. No entanto, eterniza-se no pensamento de quem a lê, porque a brevidade das ondas, assim como a breve poesia, é movimento, e este é mais poesia ainda. A boa poesia no ensino de uma criança é norte para a vida adulta. Então, a nulidade está na forma e não no estilo. Apoio-me outra vez em Quintana, que, em “Crise”, declara: “Por causa dos ilusionistas é que hoje em dia muita gente acredita que poesia é truque...”. Para ele, os ilusionistas são os poetas, cuja habilidade rápida e superficial apresenta uma poesia oca. O poema precisa ser mais vivo, mais real, mais social. A palavra é viva e questionadora, não há como extraí-la da superficialidade, porque a vida não é superficial. A poesia não brota do vazio, mas do sentimento. Muitas vezes, o poeta aplica verdadeira mágica às palavras, e, ao mesmo tempo, salta de uma forma para outra, para maquiar o poema.  
O poema não comporta interpretação superficial. Em terra de brucutus, poesia é insalubridade. Em terra de filósofos, é vida. Portanto, o que desapareceu não foi a poesia, foi o público. N“Os máscaras”, Quintana enfatiza: “O homem invisível via-se obrigado a botar máscara. Era uma face enganadora, alheia, sinistra, melancólica... O Poeta, para entrar em contato com os outros homens, põe-se a fazer poemas”. O poema é um poderoso veículo de comunicação, está faltando treino para os apresentadores. Já dizia Guimarães Rosa, “o que ela (a vida) quer da gente é coragem”, porque, na escrita, “um léxico só não é suficiente”.     
Quintana alertou: “Os verdadeiros poetas não leem os outros poetas. Os verdadeiros poetas leem os pequenos anúncios dos jornais”. Vejamos aí a grandeza do poema, ele não fica atracado nas rimas, ou nas palavras lapidadas, o poema traz a notícia, mas, para que haja compreensão dos “pequenos anúncios” que transitam o poema, é preciso conhecimento.



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