18/04/2020 às 10h05min - Atualizada em 18/04/2020 às 10h05min

Longanimidade

ALICE GUSSONI
Lac free, glúten free, love free. Intolerância à tolerância. Algo tão presente em nossas vidas. No céu, no ar, na terra. Ela está no ar que respiramos, na comida que comemos. Lac free, glúten free, love free.

Quando eu trabalhava mais intimamente com gastronomia, tinha contato constante com as intolerâncias alimentares. Cheguei a criar bolos que não podiam conter trigo, soja, ovos e açúcar. Sim, um desafio enorme. Praticamente um bolo de não bolo.

Mas também, aos poucos, a intolerância foi se tornando comum também além dos nossos pratos. Nas nossas conversas. Nas filas do banco. No Uber. No Instagram. A intolerância virou a maior ferramenta de ativismo virtual. Parece automático que para te mostrar que o que eu acredito está certo, preciso primeiro ridicularizar qualquer outra coisa que esteja sendo feita de modo diferente. Agressividade nos diálogos é o novo pretinho básico.

Pessoas precisam eliminar algo das próprias vidas para continuarem sendo felizes. Existe algo que não pode ser digerido por você, então é melhor exterminá-lo. Todos os dias pessoas fazem memes sendo intolerantes.

Pessoas se separam sendo intolerantes.
Pessoas transmitem informação para outras sendo intolerantes.
Pessoas lidam com a sexualidade alheia sendo intolerantes.
Pessoas defendem seus pontos de vista e opiniões sendo intolerantes.
Pessoas também se curam sendo intolerantes.
Pessoas fazem amizade sendo intolerantes.

Em um belo dia, eis que me deparo com um chocante paradoxo: me percebi com uma absoluta, gigantesca, profunda intolerância aos intolerantes. Sempre achei que a melhor forma de mudar o mundo era com a gentileza, com o próprio exemplo. Nunca fez sentido defender minhas opiniões desqualificando a opinião alheia. Nunca achei engraçado piadas que reforçam inferioridade. Mas, em certo momento, me percebi ridicularizando quem ridicularizava, e dizendo “não sei quem fui”.

Uma de minhas professoras no Zen propôs um dia a seguinte reflexão: é diferente a intolerância que o homossexual sente pelo homofóbico, do que a intolerância do homofóbico contra o homossexual? Não falo de agressão ou quaisquer atitudes agressivas. Apenas o sentimento.

Se escolho a não-aceitação do modo de pensar do outro, estamos exatamente na mesma posição. Quanto realmente conseguimos entender a frase “não concordo com você, mas te respeito”? Tenho também outro monge professor que pratica meditação Zen budista em uma igreja católica, em um encontro com diferentes religiões. Imagina a beleza de um encontro com budistas, católicos, judeus e muçulmanos para praticarem juntos suas conexões com a espiritualidade. Um exercício que demonstra a grandeza da nossa própria divindade interior.

Bom, talvez eu me importe com isso porque acredito que devamos mais entender no que nos assemelhamos do que divergimos. Por acreditar que possa nos trazer um cotidiano mais harmônico. Isso significa ter humildade pra enxergar meus próprios sentimentos. Ter humildade também pra admitir que certas partes de mim precisam acolher todo tipo de diferenças. Pra mostrar que não sou só eu que estou dizendo isso, veja bem essa frase da bíblia em Efésios 4:2: "…Com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor".

Longanimidade: a virtude de se suportar com firmeza contrariedades em benefício de outrem; magnanimidade, generosidade. Então, torço para que a gente consiga trazer essa virtude para nossas vidas, para o bem da nossa felicidade coletiva.
A receita de hoje é leve e saborosa, para adoçar paladares de gregos e troianos.
 
 
PUDIM DE CHIA
 
INGREDIENTES
 
– 100g de chia
– 100g de açúcar (pode ser mel ou o adoçante que preferir)
– 100g de água
– 200ml de leite de coco
– 100g de coco ralado
– 1 manga
 
MODO DE PREPARO
 
Misture a chia, o açúcar, a água, o leite de coco em uma vasilha, tampe e leve à geladeira por 6 horas. Para servir, molhe as bordas de um copo na água, depois mergulhe no coco ralado, complete o copo com o pudim de chia, finalize com manga picadinha.


O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.


 
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