05/04/2020 às 08h30min - Atualizada em 05/04/2020 às 08h30min

O papel da imprensa

ALEXANDRE HENRY

Eu vou dar alguns exemplos para que você faça uma reflexão. Imagine duas situações distintas: na primeira delas, um carro se choca contra o outro na esquina, que acaba capotando; na segunda, um carro para quando percebe que uma senhora quer atravessar a rua, mesmo fora da faixa de pedestres. Vamos a mais duas situações distintas: na primeira, uma forte chuva durante a noite faz desabar o muro da casa da esquina, vitimando o pobre do cachorro que ficava em uma casinha junto ao muro; na segunda, o canteiro de flores que uma vizinha da outra esquina plantou finalmente amanheceu florido. Só para ser mais chato um pouquinho, vamos para mais duas situações opostas: na primeira, uma van escolar, com 12 crianças, capota em uma estrada da zona rural e seis delas perdem a vida; na segunda, 12 crianças de uma escola fazem um final de semanas de visitas a idosos que vivem solitários em suas casas, alegrando a vida daqueles vovôs e vovós abandonados.

Agora, esqueça, ao menos por um momento, jornais, revistas, noticiários da TV e do rádio. Pense apenas nas mensagens pelo WhatsApp, nas postagens das pessoas nas outras redes sociais e nas conversas entre conhecidos. Nesses três casos acima, quais situações você acha que serão mais comentadas? O acidente de carro ou o veículo que parou para a velhinha atravessar a rua? A morte do cachorro pelo desabamento do muro ou o canteiro florido? A tragédia com as crianças ou o sorriso dos velhinhos?

Acho que você tem o mesmo palpite que eu. Se tem, então já percebeu o quanto há de hipocrisia nas críticas que sempre são feitas ao papel da imprensa (aqui, entendida como o jornalismo em geral, independentemente do meio de divulgação). Em geral, o que se fala é o seguinte: a imprensa é um lixo, os jornalistas só gostam de tragédias e não noticiam as coisas boas que acontecem. Vai me falar que você nunca ouviu isso? Às vezes, já até foi fala sua mesmo. Eu te pergunto: o jornalismo molda a sociedade ou é reflexo dela? Essa é outra pergunta cuja resposta é meio óbvia. As reportagens jornalísticas noticiam aquilo que chama mais a atenção das pessoas e ponto final. Alguém acha que um jornal publica reportagens de acontecimentos dramáticos na sociedade só porque seus jornalistas têm prazer por tragédias? Alguém acha que o repórter vai lá cobrir o deslizamento de terra que matou uma família inteira por ter seu coração preenchido de felicidade diante das imagens chocantes? É claro que não!

Há dois lados nessa questão. O primeiro deles é o fato de realmente as pessoas buscarem mais notícias sobre o que não querem que aconteçam, sobre eventos que merecem a atenção para que saibamos da existência deles e pensemos em como evitá-los. Eu acho que o mundo ideal seria aquele dos motoristas gentis, que param para velhinhas. Mas, preocupa-me bastante o fato de um motorista irresponsável atravessar meu caminho na esquina, atingir meu carro e colocar minha vida em risco. Eu espero que todo canteiro floresça de forma magnífica, mas não espero perder a vida com um muro caindo na minha cabeça. Bato palmas para crianças que alegram idosos, mas tenho pavor só de pensar em perder minha filha em um acidente de trânsito, razão pela qual me interessa a notícia de uma tragédia assim, pois quero o que exatamente ocorreu para poder, com mais informações, evitar o mesmo fim para a minha pequena. Em síntese, as coisas belas do mundo interessam a todos, claro. A não ser que você seja um psicopata ou tenha algum outro distúrbio mental ou emocional, o sorriso de uma velhinha ao receber o carinho de uma criança de cinco aninhos em sua casa sempre será algo deslumbrante. Mas, nosso instinto de sobrevivência faz com que busquemos informações constantes sobre tudo o que pode representar perigo para um ser humano.

O segundo lado da questão é que, ciente disso e precisando sobreviver, o jornalismo busca notícias que possam, além de informar as pessoas, atender ao que elas querem ver e ouvir e, assim, permitir a sobrevivência do próprio jornalismo. Monte duas páginas no Facebook distintas. Em uma delas, divulgue apenas notícias boas. Na outra, divulgue apenas tragédias. Depois, veja qual das duas terá mais acessos. Será a segunda, claro.

Os jornalistas não são vilões, não são carniceiros ou coisa parecida. Eles simplesmente buscam noticiar aquilo que causa mais interesse na maioria das pessoas. Se as tragédias geralmente ocupam esse lugar, a culpa não é dos jornalistas. A culpa – se é que há culpados nessa história – é apenas da sociedade.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.















 

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