31/03/2020 às 08h00min - Atualizada em 31/03/2020 às 08h00min

O primeiro regulador público

ANTÔNIO PEREIRA
Há pouco mais de 50 anos, fui representar o prefeito Renato de Freitas na inauguração de um relógio que se instalou na torre da igreja de Tapuirama. Pela Câmara Municipal foi o vereador Antônio Couto de Andrade. Couto e Renato não amarravam o burro no mesmo pau.

A organizadora da festa, professora Deusdete Moreira, quando me apresentei, disse-me que o último discurso seria meu, em nome do prefeito. Respondi-lhe que não podia ser porque não falo em público, muito menos de improviso. Como insistisse, alertei-a de que seria um fiasco.

Ao final da cerimônia, a festeira não titubeou:
- E agora, em nome do prefeito Municipal, vai falar o seu representante...
Esfriei. Danada, pensei, estragou a festa.
Mas a professora, equivocada, completou:
- Antônio Couto de Andrade!

Suspirei. Apesar de adversários políticos, Couto não perdeu a oportunidade. Adorava fazer discursos. E elogiou o seu opositor.

A lembrança desse fato, me faz recuar mais no tempo e registrar a inauguração de um relógio público na velha Uberabinha do século XIX.

Relógio, em praça, naquele tempo, era chamado de “Regulador Público”.

Como parte das comemorações do Sete de Setembro de 1.893, Arlindo Teixeira, grande empresário, líder social, homem de muita religiosidade, encomendou a seu cunhado, Manoel Terra, que morava em Uberaba, um Regulador Público. Pretendia instalá-lo numa das torres da igreja de Nossa Senhora do Carmo, ali no Largo da Matriz, hoje praça Cícero Macedo.

Manoel Terra transferiu o pedido à importadora paulista Grumbach & Comp., empresa internacional, com casas em Paris e Chaux de Fonds.

No dia 10 de abril de 1.893, desembarcou no porto de Santos, procedente do Havre, França, os volumes que continham o Regulador. Eram três caixas. O custo, na origem, foi de um conto e cinquenta e três mil réis, porém com os acréscimos de fretes, despesas alfandegárias, mais isso, mais aquilo, chegou a quatro contos, duzentos e vinte e cinco mil e setenta réis. Quatro vezes mais caro.

As caixas, que chegaram em carro de bois, porque a Mogiana ainda não tinha vindo para  Uberabinha, estavam paradas em Uberaba, foram depositadas no antigo prédio do Fórum onde o técnico Fornério lubrificou as peças antes de montá-las. Fornério era de Uberaba.

Montado e instalado, o Regulador começou a funcionar no dia 28 de fevereiro de 1.894 (ficando o Sete de Setembro lá para trás), com Banda de Música, foguetes, muitos discursos e tudo mais a que tinha direito como aconteceu quase 100 anos depois em Tapuirama.

Quando, em 1.943, demoliu-se a igreja, por ordem do prefeito Vasconcelos Costa e permissão do pároco Monsenhor Eduardo, a Cúria concordou em ceder o Regulador Público para o Município de Tupaciguara, pelo preço de dez mil cruzeiros. O dito regulador foi instalado à época na Igreja Matriz da nossa vizinha. 

Fontes: Tito Teixeira, Arquivo Público Municipal, Antonio Pereira da Silva)


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.











 
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