30/03/2020 às 10h56min - Atualizada em 30/03/2020 às 10h56min

As diferentes fases da Covid-19

ANGELA SENA PRIULI

Em meio à pandemia da Covid-19, a maioria dos países do mundo concentra suas forças visando achatar a curva de disseminação do vírus. As medidas de prevenção tomadas são fundamentais para tentar evitar uma rápida progressão do vírus entre a população, especialmente entre os pacientes “de maior risco”: cardiopatas, hipertensos, portadores de doenças neoplásicas, autoimunes, renais e outros... Além disso, as medidas de isolamento tentam também evitar o iminente colapso dos sistemas de saúde público e privado!

Como estimamos que cerca de 20% dos pacientes que desenvolvem a infecção respiratória necessitarão de cuidados hospitalares e 5% necessitarão de UTI, quanto mais gente entrar em contato com o vírus, mais pacientes vão precisar de internação hospitalar e de UTI para que tenham mais chances de sobreviver à Covid-19. A depender do número de infectados, poderemos ter uma situação catastrófica no país, aonde muitos pacientes, especialmente idosos, morrerão pelos corredores de Enfermarias e Emergências públicas e privadas, sem assistência médica adequada.

As medidas de prevenção, necessárias para retardar o pico, podem ser divididas em três diferentes fases: contenção, mitigação, supressão e recuperação. As medidas de contenção deveriam ter sido adotadas no início da epidemia (quando o vírus estava chegando no Brasil). Nessa fase, deveria ter sido realizado o rastreamento rigoroso e rápido de casos suspeitos, por meio de testes para a detecção da doença entre todos os indivíduos que entravam no país. Deveríamos ter isolado todos os casos confirmados e seus contatos mais próximos. No Brasil, esta fase não aconteceu. Não houve qualquer limitação para a entrada de pessoas que vinham de áreas com casos já confirmados e também não havia kits de testes disponíveis para investigar os suspeitos, incluindo os que chegavam do exterior possivelmente carregando o vírus!

Na fase da mitigação, já não se consegue mais determinar quem passou o vírus a quem (a transmissão veio de alguém da comunidade, e não de um contato específico que chegou do exterior). Neta fase, o objetivo da prevenção é diminuir o avanço da pandemia, sem necessariamente detê-la, com medidas moderadas. Busca-se, então, principalmente, evitar que o vírus atinja os pacientes dos grupos de risco. Algumas das ações desta fase foram: suspender aulas, fechar lojas e restaurantes, cancelar eventos esportivos, congressos, shows e espetáculos. De forma mais radical, a fase da supressão busca romper as cadeias de transmissão do vírus, com o distanciamento social rígido de toda população (adoção de toque de recolher, restrições de locomoção entre Estados, municípios ou mesmo entre bairros de uma mesma cidade). Durante uma supressão real, a quarentena deve ser obrigatória e os testes investigativos deveriam ser feitos em massa.

A última fase é a de recuperação. É quando a pandemia dá sinais de que está acabando, principalmente com a diminuição do número de novos casos. Em geral, pela experiência de outros países, esta fase não acontece antes de 3 meses. Assim, no Brasil, o SARS-COV2 ainda deve permanecer circulando por, no mínimo, mais 2 ou 3 meses antes de começar a involuir. E, infelizmente, antes disso, o vírus ainda trará muito sofrimento, infectando milhares de pessoas, causando grandes transtornos na saúde pública e privada e levando a outras centenas (talvez milhares) de doentes e mortes.

Apesar da efetividade do isolamento social no combate à disseminação do vírus e consequente preservação de vidas, não há dúvidas que estas medidas provocarão alterações devastadoras na economia do país. Muitas pessoas, além de perder amigos e familiares, farão dívidas, perderão empregos e fontes de renda. Empresas entrarão em crise e outras fecharão. Inúmeras famílias ficarão em situação de miséria. A crise financeira que se anuncia poderá provocar ainda mais sofrimentos e mortes que o próprio vírus.

Desta forma, será preciso muita tranquilidade, maturidade, sabedoria e diálogo entre governantes e autoridades da saúde para saber até quando as medidas de isolamento social deverão ser mandatórias. Muito provavelmente, para que se evite o caos econômico, alguns setores da economia deverão ser progressivamente liberados para retornar à atividade nas próximas semanas. Na Medicina, o grau de agressividade do tratamento deve ser muito bem contrabalançado com os efeitos colaterais, riscos e possíveis complicações relacionadas a ele. Precisaremos de médicos muito sábios para orientar a dose exata de isolamento social a ser aplicada e o tempo total de duração do tratamento. Infelizmente, por enquanto, a nossa junta médica ainda bate cabeça.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.













 

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