21/03/2020 às 09h00min - Atualizada em 21/03/2020 às 09h00min

O Estado necessário

ALEXANDRE HENRY
Uma das marcas da presidência de Dilma Rousseff foi o aumento da fatia estatal na economia. Em regra, a esquerda crê que o caminho para o desenvolvimento passa pela mão forte do Estado na economia, muitas vezes taxando o setor privado de “o grande vilão”. Claro, esse não é um pensamento uniforme na esquerda. Mas, o fato é que a visão de uma economia marcada pela forte presença estatal foi uma característica do governo Dilma. Como o país mergulhou em uma recessão no segundo mandato dela, tudo o que era associado ao seu governo foi logo associado ao que há de pior para a nação.

A história é pendular, sempre digo isso. O pêndulo foi da esquerda para a direita, das políticas estatizantes para a defesa incondicional do Estado mínimo. O pensamento se tornou um só: quanto menor a interferência do governo, melhor. E assim, como se voltássemos à época da Revolução Industrial, o país foi inundado pela ideologia do Estado inimigo, que deveria ser reduzido ao menor tamanho possível em prol de um mercado livre e eficiente. Mas, quem regularia o mercado? Ele se autorregularia, simples assim. Lei da oferta e da procura. Tal pensamento se tornou tão forte que fez com que um deputado que viveu praticamente a vida toda como agente público, um deputado que sempre expressara com absoluta convicção um pensamento mais radical do que o de Dilma Rousseff quanto à necessidade de um “Estado máximo”, candidatar-se à Presidência tendo como futuro ministro da Economia um sujeito com convicções totalmente contrárias às suas. Sim, Paulo Guedes, o ministro da Economia, é de uma escola que enxerga como ideal a máxima redução do Estado.

Porém, assim como sempre digo que a história é pendular, eu também repito à exaustão que a virtude está no meio termo – “virtus in medium est”. Do ponto de vista econômico, eu me considero um liberal (nos costumes, também). Porém, minha visão econômica nunca foi de um Estado mínimo, deixando o mercado completamente livre à autorregulamentação. Minha visão é a de que o Estado deve ter o tamanho necessário, nem atrofiado e nem hipertrofiado. Não estou sozinho nessa, pode acreditar em mim. O que significa, nas lentes pelas quais enxergo o mundo, um Estado necessário? É bastante simples. O poder público não precisa e nem deve agir diretamente em áreas em relação às quais a iniciativa privada pode tomar conta sozinha, pois é fato que, na maioria dos casos, a iniciativa privada apresenta uma maior produtividade. Porém, isso não significa deixar que os leões cuidem de si, pois a tendência é que o mais forte aniquile os demais e, na sequência, parta para cima dos indefesos cordeiros. O Estado deve estar lá para regular o que precisar ser regulado, para estimular a concorrência, para fazer com que floresça o lado bom do capitalismo e sucumba seu lado negativo.

Mas, não é só por isso. O Estado não pode ser inexpressivo do ponto de vista econômico, ainda que isso não implique em atuar como se fosse uma empresa em regime concorrencial. Ele deve ter musculatura suficiente para apagar as chamas quando o teatro pega fogo, pois o mercado geralmente foge de cima do palco assim que avista as primeiras fumaças nas cadeiras da plateia. Eu acho o lucro algo positivo, acho que ele move o desenvolvimento da humanidade ao estimular toda a sociedade a ser mais produtiva e, com isso, a desenvolver novas utilidades que tornam nossas vidas mais confortáveis e menos arriscadas. Mas, não ignoro que o lucro é algo que o mercado adora privatizar, enquanto sempre busca socializar o prejuízo. Enfim, quando a crise chega, como é o caso dos conturbados dias atuais, as forças do mercado não estão lá muito preocupadas em ajudar quem ficará sem emprego, quem poderá morrer de fome ou não conseguir atendimento em um bom hospital particular. Mais do que isso, buscará socorro nas barras governamentais, implorando por medidas de ajuda que não deixem tudo ir para o espaço de vez. Estado mínimo na bonança, mas máximo quando a crise chega.

Sinceramente? O Estado, em momentos como o de agora, deve ajudar o mercado, sim. Afinal, se a opção é uma sociedade capitalista, salvar empregos é essencial. Mas, mais do que isso, o Estado deve estar presente e deve ser forte o bastante para ajudar quem não vai ter a ajuda do mercado, ou seja, quem vive apenas do trabalho próprio. No fritar dos ovos, esse deve ser o tamanho do Estado: nem tão grande que sufoque o desenvolvimento econômico quando tudo está indo bem, nem tão pequeno que não consiga socorrer a nação quando a vaca vai para o brejo.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.








 
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