15/03/2020 às 08h30min - Atualizada em 15/03/2020 às 08h30min

Velha infância

ALICE GUSSONI
Foto: Marcel Gussoni

Esses dias passou na TV um comercial com os Jetsons. Um desenho americano produzido por Hanna-Barbera em 62, exibido no Brasil na década de 80.  Ah… que doce lembrança! Como eu os amava! Um vislumbre de como o futuro poderia ser incrível. 

Nunca deixa de ser engraçado ver como antigamente era retratado o futuro, quais rumos acreditávamos que a civilização ia tomar. Previsões maravilhosas sobre quão tecnológica seria nossa vida cotidiana. Tendo nossas vidas geridas por máquinas. Funcionários robôs. Transportes autônomos. Quase tudo virou realidade. 

Hoje temos máquinas que varrem nossa casa, fazem nosso café. Através de nossos smartphones nos comunicamos com qualquer pessoa em qualquer lugar do planeta. Através deles também realizamos boa parte de nosso trabalho, contratamos serviços, comida, tudo.

A vida vai se tornando tão fácil! Até fácil demais! 

Lembra de quando éramos crianças e queríamos ver um desenho? Nossa única possibilidade era esperar a programação da TV aberta. E nos resignar com qualquer coisa que estivesse passando na Globo ou SBT, mesmo que tivesse que assistir pela vigésima vez o mesmo episódio de Caverna dos Dragões. E esperar até o dia seguinte para ver o próximo episódio.

E torcer para que fosse, finalmente, o que eles consigam chegar em casa. Ou que fosse, ao menos, um episódio inédito. Tínhamos paciência de esperar. Conseguíamos inventar boas brincadeiras e ocupações para nossa tão agitada mente, enquanto aquilo que queríamos não chegava.  

Hoje as crianças podem assistir qualquer coisa, em qualquer língua, em qualquer horário que elas quiserem. Se o episódio não é inédito, descartam em um clique e recomeçam outro. Se for entediante, descartam, recomeçam. Se querem descobrir como dar nó em pingo d'água, basta entrar em Manual do Mundo. A gente tinha que torcer para MacGyver não transformar um chiclete e um grampo de cabelo, pela vigésima vez, em uma bomba relógio, e nem dava para experimentar fazer isso em casa. 

Mas tem o lado negro da força. Se a internet falha por dez minutos, porém, parece que chegou o apocalipse dentro de suas pequenas cabeças. Convulsões, gritos, autoflagelação. A vida sem internet, para a nova geração, é uma vida absolutamente entediante. Até porque, mesmo atividades “à moda antiga”, como um passeio no parque, futebol com os amigos e coisas do tipo, precisam ser postadas, precisam ter a aprovação e reconhecimento das curtidas. Além disso, os contatos sociais são em boa parte virtuais, as experiências vividas são mais num âmbito abstrato do que prático. Mesmo quando se encontram pessoalmente, interagem virtualmente. 

Você se lembra dos encontros com os primos e vizinhos? Carimbada, passa anel, terra na cara? Tenho nítidas lembranças do meu irmão indo brincar na rua e voltando no fim do dia, marrom, rasgado, suado, sorrindo de orelha a orelha. Hoje quando meus filhos e seus primos se encontram, existem sim uns minutos de amor e guerra, contato com o mundo exterior. Depois o resto do tempo eles sentam um do lado do outro e conversam pelo chat do game, cada um no seu quadrado em seus espelhos pretos.

Tenho começado a ensinar que eles cozinhem sozinhos. Às vezes, acho que suas mãos não sabem reagir ao imprevisto, a coordenação motora não é a mesma da geração que fazia suas pipas, seus estilingues. Mas em termos de raciocínio, são avançados e autossuficientes. Enquanto fritam ovos parecem que tem duas mãos canhotas. Enquanto pesquisam quem anda produzindo música com conteúdo futebolístico, parecem adultos.

Me pergunto como isso resultará no futuro. Como vai ser a sociedade dos nossos netos? Se fôssemos criar hoje os Jetsons de 2080, como seria? Tenho alguns palpites, mas vou deixar para o próximo capítulo.

Em relação aos meus filhos, o que tenho tentado fazer para equalizar esse movimento é trazê-los para atividades práticas e manuais. A forma mais divertida e prática que encontrei foi incentivando que eles cozinhassem sozinhos. Eles ficam extremamente felizes em se sentir tão independentes e se orgulham muito do próprio progresso e resultados. A receita de hoje é muito simples e pode ser feita até por crianças bem pequenas. 

Doce de granola e chocolate
 
Ingredientes:
Rende aproximadamente 50 biscoitos
– 1 1/2 xícara chocolate derretido
– 3 xícaras de granola
 
Preparo
Derreta e tempere o chocolate como indicado no rótulo do fabricante. Eu costumo quebrar em pedaços pequenos e colocar 2 minutos em potência média no micro-ondas.  Misture os ingredientes, unte uma forma com manteiga. Use uma colher de chá como medida para despejar os biscoitos na forma, tentando fazer porções iguais e arredondadas. Geladeira por 20 minutos e está pronto!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representam, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.












 

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