03/03/2020 às 08h30min - Atualizada em 03/03/2020 às 08h30min

Longevidade: a vida ultrapassando limites

MARIÙ CERCHI BORGES | PROFESSORA

Por coincidência, os dois últimos livros que li neste mês abordam, exaustivamente, o tema da longevidade, doença e morte. A escolha dessas leituras não foi baseada na preferência pelos temas, mas na admiração pelos escritores que colocaram, há pouco tempo, no mercado literário, suas mais recentes produções. Tais livros exploram o tema do envelhecimento de forma realista e profunda.

A feminista Benoit Groult escreve, aos 85 anos, “Um Toque Na Estrela” (Record-2008). Com lucidez, coragem, muita poesia, humor, realismo chocante, ela descreve o envelhecimento que experimenta na própria pele. A personagem central do livro é uma famosa cronista setuagenária,75 anos, que trabalha há mais de vinte anos numa revista feminina e que começa a pressentir a proximidade de sua demissão do emprego por estar, aos olhos da direção, desatualizada e ultrapassada (a demissão acontece). Referindo-se à velhice como “a mais solitária das navegações”, ela brinda os leitores com momentos de fortes emoções. Entretanto, a despeito da aparente aceitação do envelhecer, comenta: “Não tenho a menor vontade de assistir ao envelhecimento de meus filhos e nem admitir que meus netos se tornem quinquagenários”... e conclui: “a longevidade desarranja a cadeia das gerações”.

Já Philip Holt, com “O Fantasma Sai de Cena” (Companhia das Letras), centraliza o enredo no seu personagem principal, tal seja, um famoso escritor que, aos setenta e um anos, operado de câncer da próstata, se vê impotente e solitário, esforçando-se para conviver com as complicadas trocas de fraldas, higienização constante, banhos e curativos, que a nova situação exige. Afastado por onze anos dos grandes centros, vê-se tentado a voltar a Nova York, em busca de um tratamento revolucionário que promete reverter, em parte, a incontinência urinária e, quem sabe, devolver-lhe a virilidade perdida. Para agravar um pouco mais a situação, ele se apaixona pela dona do apartamento que pretende alugar. A intrigante moça é casada, bonita e fã de seus romances. Com ela, ele vai viver uma intensa paixão. O livro oprime, pesa, deixa nos seus leitores um profundo sentimento de desencanto pela vida. Despreparado para enfrentar o inevitável envelhecimento e, desencantado consigo mesmo, ele não encontra nem força e nem coragem para encarar a cruel realidade.

A vivência desse sentimento depressivo do escritor trouxe-me à lembrança nomes de pessoas que, mergulhadas magnificamente no milagre da vida, marcaram suas presenças no mundo, produzindo. Diferentemente do escritor de “O Fantasma Sai de Cena”, tais pessoas se mantiveram produtivas e inteiradas com a vida apesar da idade avançada.  

Dentre tantos nomes,  destaco a escritora Dóris Leasings que, em 2007, aos 84 anos, recebeu o prêmio Nobel de Literatura Internacional – Neustadt ; de Goethe, que concluiu, aos 83 anos, o segundo poema de Fausto, um dos seus mais famosos escritos; de Michelangelo que projetou a cúpula da Basílica de São Pedro, aos 90 anos; de Oscar Niemayer, que se projetava com os seus trabalhos, não só no Brasil como no exterior; Picasso, em pleno processo criativo, aos 90 anos e de minha mãe, que aos 92 anos dizia: “acho que estou começando a envelhecer”.

Há, portanto, os que encontram, na hora crepuscular da vida, a poesia e a beleza do Angelus, na hora da Ave Maria, magnificamente cantada, diariamente, às dezoito horas, na Catedral de Uberlândia por Edmar Ferretti, na beleza do entardecer, quando o sol começa a se pôr no horizonte, no despontar das madrugadas, anunciando o raiar de um novo dia e, no sorriso de uma criança, acenando para cada um de nós, a esperança no devir. E, conforme nos lembra Paulo Autran: envelhecer deixa-nos “quase” a alegria e a certeza do dever cumprido. Fica-nos, então, a pergunta:
 
Longevidade: Vale a pena?

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
















 

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