25/02/2020 às 08h15min - Atualizada em 25/02/2020 às 08h15min

Charges X Ética jornalística

LUCIANO FERREIRA

A leitura de charges, tiras e cartuns em jornais impressos é (ainda) um hábito cultivado por boa parte dos leitores, que por sua vez reconhecem formal ou informalmente as charges como um gênero jornalístico,  e ainda que recebam outros nomes ou formas artísticas, esse tipo de produção tem  o potencial de captar a atenção do leitor, especialmente pela rapidez comunicacional das imagens: articulam toda uma relação de contextos e informações, em sínteses visuais, apontando nessas sínteses e nos textos, informações que podem servir de base para a formação de opinião, apontar contradições e etc.

Comparando com o uso de memes para comunicar sobre  política ou costumes ( geralmente anônimos ou não creditados), charges tem autor definido e  é um gênero textual afinado com a linha editorial e respeitando as limitações éticas e de moralidade que um jornal precisa se comprometer. Esse comprometimento ora guiado pelo próprio Código de Ética Jornalistica, ora guiado pelo senso comum dos leitores, se reflete em grande parte dos casos, na forma que os cartunistas constroem seu universo de imagens, não só evitando imagens excessivamente provocadoras (escatológicas, pornográficas entre outras), mas também evitando retratar informações que não correspondam à aferição dos fatos, ou seja, o artista pode exagerar um fato, ‘caricaturizar’ uma celebridade, ridicularizar um gesto, mas em geral não podem expressar graficamente,  interpretações que não correspondam a um fato averiguado.

Evidentemente esses procedimentos se restringem a charges de natureza política e comportamental, conceitualmente diferentes de trabalhos gráficos de natureza ficcional, que quando muito, fazem uma releitura de fatos utilizando métodos de representação simbólica e sem referência direta a fatos jornalísticos e frequentemente publicados em momentos que não permitem uma relação direta de nexo contextual.

Mesmo quando o limite entre uma charge ‘ficcional’ e ‘jornalística’ fica impreciso, temos como guia a reputação do chargista e sua capacidade técnica, que junto a outros fatores, podem equilibrar os elementos de forma adequada, incentivando a reflexão e o desfrute das possibilidades artísticas.

Assim, charges produzidas em contextos jornalísticos, ainda não que não tenham obrigação de seguir o código de ética institucional de jornalistas, precisa se associar ao compromisso dos jornais no sentido de manter ‘o pé no chão’ para não alienar os leitores com informações que podem levar às fake news  e à consequente perturbação de noções de cidadania, ética ou qualquer procedimento que prejudique a relação dos leitores com a realidade.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.










 

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