11/02/2020 às 09h00min - Atualizada em 11/02/2020 às 09h00min

Feminismo pra que? A mulher no quadrinho brasileiro

ALINE ROMANI

O mercado brasileiro de quadrinhos não é nada promissor, cartunistas nacionais enfrentaram e enfrentam muitas dificuldades. Por muito tempo, os quadrinhos infantis dominaram as prateleiras e as bancas de jornais, não necessariamente provocado por uma demanda, mas por uma lógica de mercado. Em 1945 surge a Editora Brasil-América Latina que foi grande expoente de vendas. Publicava obras estrangeiras, como o Batman, Tarzan, Superman, e uma das poucas criações nacionais, o Judoka.  A EBAL comprava, principalmente dos Estados Unidos tirinhas e histórias em quadrinhos no sistema de syndicates.  Estes foram criados no início do século XX e funcionavam como distribuidoras que tinham como objetivo escoar sua produção pela Europa e América Latina. Maurício de Souza à Revista Vozes em julho de 1969 reclama que “os diretores de jornais, não acreditavam que o público aceitasse as estórias brasileiras. A estória estrangeira, não só a americana, mas também a inglesa e algumas francesas, chega aqui a preço de banana. A tira de jornal está custando apenas um dólar.”
 
Os syndicates popularizou as histórias em quadrinhos no Brasil, por outro lado, inviabilizou a produção e distribuição das histórias nacionais. Não se tratava do gosto ou predileção do leitor por histórias estrangeiras, mas de um mercado desleal, que produzia e distribuía em grandes quantidades. Na EBAL os cartunistas norte americanos eram maioria.
 
Quando se procura por quadrinho brasileiro feito por mulheres esse número é reduzido. Em uma breve pesquisa, digitei em um site de procura: “cartunistas brasileiras” e o resultado foram dezenas de homens e apenas Ciça, Fabiane Langona e a Laerte se destacavam. Da mesma forma que questionamos se os quadrinhos brasileiros foram sufocados pelos americanos, graças a uma lógica de mercado, podemos questionar se não há espaço para mulheres ou se este é reconhecido como lugar predominantemente masculino.  
 
Com o advento da internet, diversas cartunistas passaram a ganhar destaque. Em 2013, a Folha de São Paulo estreou um espaço exclusivo para produção feminina, intitulado “Quadrinhas”. No entanto, a seção recebeu várias críticas de leitores: “Muito fraca essas quadrinhas” ou “segregar mulheres num canto especial acaba sempre por cheirar meio mal”. Ora, quando o espaço era exclusivamente ocupado por homens não havia problema? Segundo a cartunista Pryscila Vieira “A mulher sempre é objeto, um estereótipo sem voz: é a gostosa, a burra (...) Então, condicionadas a pensar que todo humor gráfico segue este padrão, muitas mulheres acabaram por sequer procurar por este tipo de arte. Sentem-se agredidas, caçoadas e não gastariam seu suado dinheiro comprando um livro em que são reduzidas ao objeto de piada”.
 
Mesmo diante de alguma resistência, multiplica-se o número de artistas que enfrentaram os obstáculos para divulgar seu trabalho de forma independente. Dito isso, é necessário lembrar que não basta produzir para ocupar espaço no mercado, é preciso haver produção, distribuição e consumo. Todas essas etapas dependem da divulgação. E é neste ponto que o movimento feminista faz a diferença para dar visibilidade as cartunistas, sejam elas engajadas ou não. Mulheres divulgando e consumindo outras mulheres é uma forma de superar a ideia de que história em quadrinhos é coisa de homem.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.











 
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