09/02/2020 às 08h00min - Atualizada em 09/02/2020 às 08h00min

Naftalina

WILLIAM H STUTZ

Tem certas coisas que se eu contar podem até parecer mentira, conversa inventada ou coisa parecida. Mas estas estranhezas levam jeito de só acontecerem comigo. Mesmo assim insisto no falar sobre, depois não me crucifiquem quanto ao fato da maioria dos meus escritos terem bicho no meio, quase sempre como protagonistas. É sina. Fazer o quê?

Chego de treino anoitecendo. Raro isto, pois gosto de minhas corridas no bem cedo da manhã, ar orvalhado, dia querendo nascer. No trecho parece que vejo sonhos saindo sorrateiros de janelas, como a não querer serem lembrados por seus donos no despertar. Talvez aí more a razão de muitas vezes acordarmos com aquela sensação de algo esquecido. Observo os sonhos, lentos a flutuar deixando rastro de pequena lembrança para trás. Escondem-se em cantos calmos e talvez retornem na próxima noite ou hibernem entorpecidos para, só muito tempo depois, se manifestarem em um Déjà vu. Galicismo à parte, por favor. Sonhos fadas, deixemos as quimeras de nosso divagar de lado, se não nem história tem.

Pois sim, suado feito tampa de marmita pelas quase duas léguas entre trotes, tiros e rápido caminhar, nada melhor do que um belo banho, roupa velha desfiada e larga de em casa ficar. Um jantar leve e um esparralhar confortável, a buscar um bom filme para finalizar o abençoado dia.

Nesse zanzar pela casa, no sobe e desce escada, no vai daqui para ali, quem está juntinho ao meu calcanhar? Ora a Princesa, minha gata vira-latas. Aquela já citada aqui várias vezes e que até parece gente. Não, retiro o que escrevi, gente não, seria o estragar da felina. Arrumo: que até parece… gato.

Até quando ao chuveiro, ela fica deitada à porta a me esperar. Não sei se já contei que sempre procura algo meu para dormitar,camisa, mochila, cadeira, mas tem que ter meu cheiro.Torme com um olha aberto e outro fechado, tinhosa que só, Boba nada. Nós é que tentamos ficar com os dois olhos abertos,  somos quase sempre pegos de surpresa, em ciladas vindas de tantos e menos esperados seres humanos. Muito a aprender com os bichos, felinos em particular.

Pronto. Já engatilhado um bom e velho filme me ponho a rever pela enésima vez, com prazer, o indescritível “Casablanca”. Humphrey Bogart como Rick Blaine, Paul Henreid, Ingrid Bergman e seu marcante e deslumbrante personagem, Ilsa Lund. Que doido. Não se faz mais tamanha beleza como aquela. Destaque também para Claude Rains, genial na pele do Capitão Renault. Não viu? Não sabe o que está perdendo.

Apenas a luz do abajur acesa, calma e morna. Casablanca rolando. Nada não. Ouço o triturar de ração. Penso, sem pensar, que Princesa come muito devagar e aos poucos. E lá isso é hora de lanchinho noturno? Continuo com olho pregado no filme. Mas não é que do nada olho para o lado e quem vejo? Princesa no maior dos sonos, chegando a ronronar. Talvez algum sonho voltou a visitá-la. Aqui um rápido à parte. Sentindo-se em segurança, bichos dormem profundamente e eu, como Hipnosera, o guardando seu sono. Que Morfeu, que nada! Este era irmão daquele e levou a fama. Típico, como algumas gentes que querem glória à custa do trabalho de outrem, até os deuses gregos podem ser traiçoeiros.

Uai! Se não era Princesa… Mal terminei o pensamento e levantei de manso. Descalço, sem fazer ruído, fui espiar. Só deu tempo de ver o pequeno corpo cinza puxando sua cauda pelada. Um filhotão de gambá! Entrou na mais falta de cerimônia e veio à ceia. Fui atrás para convidá-lo a sair. Sabia que iria me dar trabalho. Nunca mais poderia deixar fruta ou alimento que fosse, pois o danado iria lá. Tornar-se-ia o “Provador oficial” de tudo quanto há. Eu não queria isso.

E agora José? Como despejar o gambazinho sem machucá-lo? Princesa, indócil, já o procurava com o faro e me indicava o seu esconderijo. Mais um perigo. Se os dois se pegassem o confronto iria ser grave. Minha experiência em manejo de animais silvestres me ajudou, em termos. Capturávamos gambás juntos com o Corpo de Bombeiros e com auxílio de gaiola. Agora sei que a Zoonoses de Uberlândia faz cada vez menos, para capturar intrusos. Pois, por experiência própria e de muitos conhecidos que acabam pedindo orientação, a resposta de sempre é: “Não fazemos mais isso”.

Pensei cá comigo, se já conseguimos desalojar morcegos em pequenas colônias com naftalina. Quem sabe daria certo com o meu visitante? Pois fui à busca em plena noite, sem nem trocar de roupa, só percebendo que estava caseiramente mulambado quando notei olhares estranhos a mim dirigidos. Farmácias várias, sem chance. Supermercados seria a derradeira opção devido ao avançar da hora. Com muita busca consegui achar um que tinha naftalina. Sorte total.

Cheguei em casa com jeito de batalha vencida. Espalhei bolinhas pra toda banda. Debaixo da máquina de lavar, fogão e um mundo dentro do motor da geladeira, onde era o seu esconderijo. Resumo da ópera? A casa ficou cheirando caixa de enxoval, como me disse uma amiga. E mais. Princesa, eu, as lagartixas, as aranhas de teia, grandes companheiras, saímos todos. Todos menos quem? O gambá!  Ninguém aguentava o cheiro forte daquilo. Aquilo não pode ser bento não. Cria do cão, só pode.

Assim ficou durante dois dias. O visitante saiu certa tarde por sua conta e risco. Acho que se mudou. Não foi a naftalina que correu com ele, foi a falta de comida, pois passei a guardar até fruta na geladeira. Acabou a mamata e ele foi garimpar rango em outras praias. Passei horas catando as bolinhas brancas. Casa ventilada, posso contar que até hoje o cheiro está impregnado.

Arrematando, depois da busca pela naftalina voltei ao meu filme. Esqueci e o deixei rolando. Mais uma vez não pude por atenção se Bogart disse para o ator Dooley Wilson, o Sam do Rick's Café ao piano, famosa frase: “Play it again Sam”. Acho que não.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.







 









 
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