04/02/2020 às 09h46min - Atualizada em 04/02/2020 às 09h46min

Uma brasileira nos States

Ana Maria Coelho Carvalho, bióloga
“Nem pensar em ficar doente e precisar de médico e de hospital sem ter algum plano de saúde. Uma brasileira, sogra da amiga da minha filha, veio passar uns tempos nos States. Teve uma ameaça de enfarte, passou 24h no hospital e a conta foi de 150 mil dólares”

Em quase três meses que fiquei nos States, na casa de minha filha, quando minha netinha nasceu, aprendi muito. Por exemplo, em país estranho nunca ande de trem ou de metrô sem ter certeza de onde irá descer. Saí para passear com meu neto de dois anos. Guardei o nome da estação onde deveria descer na volta, Meadowview, mas esse na verdade era o nome da linha do metrô. Assim, passamos do ponto e quando descemos, na última estação, eu não tinha a mínima ideia de onde estava e muito menos o meu neto, que adorou andar tanto tempo de metrô. Fomos resgatados pelo meu genro, depois de muita confusão.

Outra coisa: não corte cabelo em salão de chineses. Entrei nessa e não tinha a menor ideia de como sairia do salão, pois a chinesa falava sem parar, num inglês esquisito, e não aceitava opinião, só ela sabia de tudo. Cortou e tingiu meu cabelo do jeito que quis. Quase fugi, com medo de sair de cabelo verde, bem curtinho e espetado. É mais barato, mas não vale a pena, é só angústia e desespero. Paguei 43 dólares, em salão normal era cerca de 150.

Também nem pensar em ficar doente e precisar de médico e de hospital sem ter algum plano de saúde. Uma brasileira, sogra da amiga da minha filha, veio passar uns tempos nos States. Teve uma ameaça de enfarte, passou 24h no hospital e a conta foi de 150 mil dólares. Além disso, não é bom morrer por aqui (aliás, em nenhum lugar). Existe o costume de se embalsamar os corpos para esperar o momento oportuno para o enterro. Um amigo da babá da minha filha morreu no inverno e ficou embalsamado dois meses esperando um tempo melhor. Em compensação, tem funeral muito sofisticado.

Assisti a um (de penetra) com todas as pessoas (menos eu, lógico) com camisetas brancas com o retrato do finado e com palavras de carinho. Além do corpo embalsamado, cercado de flores, havia uma exposição de fotos das etapas da vida e dos familiares do finado. Colocaram também os brinquedos preferidos dele quando era criança e até a primeira roupinha azul que vestiu no hospital quando nasceu, quase chorei.

Outro conselho importante: cuidado ao pedir comida em restaurante. Tem tanta comida diferente por lá (tailandesa, chinesa, indiana, africana, portuguesa, americana, francesa), que é bem possível comer uma coisa pensando que é outra. Como eu, que certa vez enchi um prato de “dressing”, um molho picante, frio e apimentado, pensando que era uma sopinha gostosa. Mas não há perigo se as comidas forem bem óbvias, como as pernas de caranguejo de meio metro e um caldeirão imenso de sopa de pés de galinha, que vi em um restaurante chinês (mas não comi).

Mais uma coisa: aqui todos respeitam o espaço pessoal do outro. Não tem empurra-empurra e encosta-encosta. Qualquer encostadinha em uma pessoa, é preciso falar “excuse-me” e “I´m sorry” mil vezes. Ninguém fica juntinho nas filas e no metrô, é falta de educação. O meu genro americano, respeitador do espaço alheio, ficou espantado quando, na Bahia, entrou na fila para comprar passagem de ônibus. Deixou um espaço entre ele e o próximo. Todos entravam naquela vaga e ele ficou horas na fila.

Por fim, aconselho a não assistir à missa em português de Portugal, quando sentir saudades da nossa língua. Fui algumas vezes assistir à missa dos portugueses e embora seja encantador ouvir o coro de pessoas bem velhinhas, cantando ao som do bandolim, só é possível entender uma ou duas palavras. No mais, “the United States of America” são um país diversificado, de pessoas educadas, mas “bãooo” mesmo é o Brasil.



*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.








 
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