03/02/2020 às 11h57min - Atualizada em 03/02/2020 às 11h57min

Será que vai dar certo?

ALEXANDRE HENRY
“Depois dessas duas experiências, ainda tivemos mais duas e todas estão sendo bastante positivas. Foi tudo uma maravilha? Não, pois, como eu disse, é preciso criar uma nova mentalidade para se conseguir trabalhar à distância”

Todo mundo tem ao menos uma teoria que, segundo suas próprias crenças, daria certo se colocada em prática. Armar a população, desarmar a população, liberar o uso da maconha, privatizar as universidades, enfim, tem ideia para todo gosto e tem gente que jura de pé junto que aquilo funcionaria. Mas, e se realmente a teoria fosse testada no dia a dia? Será que os resultados seriam aqueles esperados?

Eu tinha uma teoria de que, na maioria dos casos, o teletrabalho (também chamado de home office e de trabalho remoto) poderia ser muito positivo. Já escrevi mais de uma vez sobre o tema, mas volto a ele para falar justamente desse desafio que é colocar uma ideia em prática.

Quando eu participei da instalação da sede da Justiça Federal em Ituiutaba, eu encontrei uma equipe animada com o novo trabalho. A metade estava tomando posse no cargo naquele momento, o que, por si só, já dava um gás danado. A outra metade vinha de remoção e também estava animada, já que, ao menos em tese, estava dando um passo a mais para o retorno às suas cidades de origem. Porém, percebi que o tempo logo faria com que alguns perdessem o entusiasmo inicial, especialmente porque ninguém era originário de Ituiutaba e a saudade do lar certamente iria se tornar um fardo cada vez maior.

Em meados de 2018, o Tribunal editou uma norma permitindo que uma pequena parte da força de trabalho atuasse à distância. Eu, que já tinha exposto para a minha equipe minha crença nesse sistema, tratei logo de testar a eficácia dele. Em respeito às regras estabelecidas pelo Tribunal, porém, apenas dois funcionários conseguiram ir para o sistema de trabalho remoto inicialmente.

O primeiro deles era recém-casado e a esposa morava em Uberaba, sem condições de se mudar para Ituiutaba. Situação chata essa, não? Ele fazia bem o seu trabalho, não demonstrava contrariedade, mas era óbvio que gostaria de estar em sua cidade natal. Estabelecemos uma meta então, maior do que a que ele já tinha quando estava atuando presencialmente, e logo as coisas começaram a fluir. Ele me confessou que não foi tão simples se adaptar àquela nova rotina, vez que a gente geralmente associa o trabalho a um local e horário específicos. Mas, claro, voltar para casa, para a esposa e abandonar as exaustivas viagens semanais fez um bem danado para ele.

O segundo funcionário que adotou o sistema era da região sul de Minas Gerais e tinha uma namorada firme, fotógrafa, que não podia acompanhá-lo também. Situação ainda mais difícil, pois não dá para fazer essa viagem todo final de semana. Imagina se ele não virou outra pessoa? Quando ele comparece ao fórum a cada dois meses, como determinam as normas do Tribunal, não encontro mais aquele olhar angustiado de antes e só tenho histórias boas para ouvir. Agora, aliás, ele vai se casar, algo impossível enquanto estava trabalhando no pontal do Triângulo Mineiro.

Depois dessas duas experiências, ainda tivemos mais duas e todas estão sendo bastante positivas. Foi tudo uma maravilha? Não, pois, como eu disse, é preciso criar uma nova mentalidade para se conseguir trabalhar à distância. Um dos quatro me deu um pouco de cansaço no começo, não tendo entendido por completo que o teletrabalho não era uma questão de produção independente e desconectada com o cotidiano do fórum. Em alguns momentos, tive que advertir a pessoa sobre a necessidade de, durante os dias úteis, nas horas diárias de seu expediente, permanecer sempre ligada ao seu celular e à sua caixa de e-mails, pois poderia haver alguma emergência. Só depois de alguns “conselhos”, as coisas passaram a fluir perfeitamente. Hoje, todos aqueles problemas foram superados e os quatro servidores têm apresentado um rendimento acima do que tinham quando trabalhavam presencialmente, estão muito mais felizes e, tenho certeza, sentindo-se seres humanos bem mais completos.

E para a Justiça Federal? Economizamos quatro computadores, quatro conjuntos de mesa com cadeira, energia elétrica, espaço etc. Para a equipe toda, economizamos mau humor, lamentações e atritos decorrentes da insatisfação gerada pela distância de casa, ganhando ainda mais harmonia. Por fim, eu ganhei a certeza de que o teletrabalho é uma ideia que, na prática, pode dar muito certo, mas muito mesmo. Conseguir uma produtividade maior com custos menores e funcionários mais satisfeitos é o que toda corporação quer, não é mesmo? Pois é o que a prática nos trouxe em relação ao trabalho remoto.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.










 
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