24/01/2020 às 08h10min - Atualizada em 24/01/2020 às 08h10min

Ouvidor ou falador

Celso Machado
“Mas não sei não, ultimamente penso que não estarei mentindo se disser que venho tentando ser melhor ouvidor do que falador.”
 
Com frequência comento a mudança que aprender a ouvir provocou na minha vida. Devo isso a um professor que, pacientemente, me explicou as diferenças que não são poucas entre ouvir e escutar. Que para ouvir preciso dedicar muito mais concentração do que apenas ficar calado. É necessário dar atenção verdadeira. E afinal o que é isso? É ficar interessado na informação, comentário ou opinião que estão sendo passados. Absorver pacientemente o impacto, provocação e explicação que irão provocar. Antes de responder, contestar ou acrescentar, dedicar um tempo em refletir.

Para isso não são apenas nossos ouvidos que precisam estar atentos, mas principalmente a cabeça e o coração. Não é fácil, porque na maioria das vezes quando estamos conversando e o outro é quem está falando, ficamos impacientemente esperando apenas a brecha para podermos expressar nosso pensamento. Em momentos assim não estamos ouvindo, ficamos apenas em silêncio. Isso é o que acontece em quase toda discussão: nenhuma das partes está nem aí para o que a outra está colocando; na primeira oportunidade coloca seu ponto de vista com a arrogância dos entendidos.

Ouvir cansa, não no sentido de aborrecer, mas no esforço que exige. Por razões profissionais vivo isso frequentemente, colhendo longos depoimentos que me fascinam pelas histórias e ensinamentos que adquiro, registro e compartilho. Ao final deles me sinto cansado pela concentração que isso exige. Cansado, mas muito feliz, diga-se de passagem. Ainda que tenha aprendido bastante nesse quesito, tenho consciência que estou no primário. Tudo bem, não sou do tipo apressado mesmo, acho ótimo saber que vou perceber coisas maravilhosas que hoje passam despercebidas.

Com certeza uma delas é ouvir além das palavras. O que necessariamente não está sendo dito, mas que pode nos tocar e ensinar.
Ouvir o silêncio, por exemplo, tão rico em ensinamentos e reflexões. As conversas mudas de nossas ideias e pensamentos. As provocações das leituras, as mensagens dos animais e da natureza. Os olhares que falam mais do que palavras. O afeto que não precisa delas para se manifestar. O amor, ah esse então se expressa de infinitas maneiras sem usar frases.

Sou sincero quando digo que gosto de ouvir e de falar e que tenho dúvidas quanto a minha predileção. Mas não sei não, ultimamente penso que não estarei mentindo se disser que venho tentando ser melhor ouvidor do que falador.




*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
 









 
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