24/12/2019 às 08h12min - Atualizada em 24/12/2019 às 08h12min

E o João ganhou a rua

ANTÔNIO PEREIRA
Quando, na década de 50, faleceu, em desastre automobilístico, o jornalista José Ayube, a bancada comunista da Câmara Municipal apresentou um Projeto de Lei dando o seu nome a uma rua do Fundinho. Imediatamente a ala conservadora rodou a baiana – que Uberlândia não poria nunca o nome de um comunista em rua da cidade. Paradoxalmente, a defesa veemente da nomeação do logradouro foi feita pelo jovem vereador Renato de Freitas, pessedista, membro de família tradicional e conservadora. Alegou o Renato, que depois foi um dos nossos melhores prefeitos, que Uberlândia nunca questionou ideologias na hora de homenagear pessoas que lutaram por seu desenvolvimento. Ganhou. E a rua tá lá, no Fundinho mesmo. Mais recentemente, tentei nomear uma rua em homenagem a um dos grandes propugnadores pelo progresso da cidade, principalmente na área dos transportes. Comunista também, João Cândido Pereira merecia mais do que ninguém ser prestigiado. Procurei a bancada comunista da época que encampou entusiasmada a proposta. Juntei documentos e informações à justificativa por escrito. O papo foi bom, mas não rendeu nada.  Nem Projeto de Lei foi apresentado. Desanimado, apelei para os adversários ideológicos do João. Procurei o vereador Luizotinho de Freitas, primo do Renato, e juntei a mesma papelada que se tinha tornado inútil nas mãos dos “camaradas” do João. Luizotinho achou válido homenagear um comunista valoroso e apresentou Projeto nesse sentido. Foi aprovado. Virgílio Galassi, que era Prefeito na época, sancionou a Lei numa véspera de Natal como um suntuoso presente à humilde família do João Cândido Pereira. A rua tá lá, no Luizote.

João Cândido tem histórias maravilhosas que tenho contado, aos poucos. Na época do regime militar, a polícia chegou pela frente do seu chalezinho na avenida Cesário Alvim e o João saiu pelos fundos pulando os muros dos quintais vizinhos. Só reapareceu quando o perigo acabou.

Depois de uma viagem maluca de Brasília a Catalão, de caminhão, por estradas boiadeiras e de fazendas e trilhos de carros de bois, pesquisando a viabilidade da passagem de uma rodovia por ali, João Cândido conseguiu aglutinar interesses de todas as áreas políticas da cidade em torno da ideia. Políticos, imprensa, empresários, entidades de classe, todo mundo entrou na batalha e conseguiu sensibilizar o Governo que, à época, era conduzido pelos militares. E saiu. Ta lá, a continuação da BR-050, a partir de Araguari, passando por Catalão, rumo a Brasília em cima dos croquis que o João fez e entregou à Associação Comercial. João e os motoristas de Uberlândia até sugeriram aos engenheiros do DNER o melhor lugar para se construir a ponte sobre o rio Paranaíba. Tá lá, a ponte Estelita Campos - nome de um Deputado goiano. A visita ao local onde se ergueria a ponte foi pitoresca. Não havia estrada. João levou os engenheiros do DNER em seu carro de praça até onde deu. Seguiram-nos uma comitiva de motoristas. No alto de uma ribanceira, de onde ainda não se via o rio, no meio do mato, João parou. Os engenheiros estranharam aquela parada e quiseram saber por que pararam ali, se nem rio havia. João tranquilizou-os – ali por perto morava um fazendeiro meio aparentado dele que lhes emprestaria cavalos para chegarem até a margem do Paranaíba. Emprestados os animais, todo mundo montou e desceu a pirambeira que é a margem mineira do rio. De modo que a chegada dos construtores de estradas ao local onde se construiria uma ponte para uma futura rodovia pular de Goiás para Minas foi feita através de uma picada na mata e todo mundo a cavalo.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.







 
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