15/12/2019 às 08h00min - Atualizada em 15/12/2019 às 08h00min

Tudo tem limite

ALEXANDRE HENRY
Há algumas semanas, li uma reportagem dizendo que, em média, as pessoas ativam o celular duzentas vezes por dia. Se você parar para pensar, tirando as oito horas de sono por dia, isso significa que as pessoas acionam o telefone a cada 4,8 minutos. Após ler a reportagem, decidi ver qual era o meu número médio de ativações do celular: 86 ativações diárias, em média. Os amigos que estavam comigo quando fiz essa conferência ultrapassavam, todos, 120 acessos por dia.

Os meus bons números diante dos amigos não significaram, porém, que eu estava bem na foto. Ora, nesse ritmo, eu estava acionando o celular a cada onze minutos. Que loucura é essa? Quem consegue ter sanidade mental se não sobrevive meia horinha que seja sem tocar no telefone?

Eu já vinha de uma luta comigo mesmo para reduzir minha dependência tecnológica fazia uns bons anos. Quem acompanha meus textos já leu sobre isso mais de uma vez. Por alguns motivos que não vêm ao caso, eu preciso estar nas principais redes sociais e, assim, a primeira luta que foi reduzir a quantidade de interações minhas no Facebook, Instagram e Twitter, pois eu necessito fazer parte dessas redes, mas não tenho necessidade de ficar postando toda hora. Foi uma luta! Hoje, vejo como a gente se perde no vício de comentar no Facebook ou no Twitter qualquer espirro que dá, de postar cada cena que vê no Instagram e de acompanhar cada comentário feito por outra pessoa. Custei, custei mesmo, mas consegui me controlar e, neste ano, posso dizer que não sou uma pessoa viciada no uso dessas três redes.

Só que o mundo virtual vai mais longe. O grande vilão do tempo, hoje, é esse monte de aplicativos de troca de mensagens. Nunca fui muito adepto ao SMS, mas meu comportamento mudou quando apareceu o WhatsApp. De início, após a explosão dos grupos nesse aplicativo, eu me mantive bastante arredio a eles e só dei o braço a torcer quando fui incluído em um grupo familiar de ciclistas. Daí para participar de vários grupos foi um pulo fácil. Você sabe bem do que estou falando, não? Esses grupos de WhatsApp e de aplicativos semelhantes viciam de uma forma que, caso você não tome as rédeas de sua vida, a cada suspiro você lê ou envia uma mensagem. Solução? Silenciar os grupos! Foi o que fiz, além, é claro, de evitar ao máximo entrar em novos deles.

Tudo isso eu já tinha feito quando notei que eu ativava meu celular 86 vezes por dia. Tomei a decisão então de reduzir esse número para, no máximo, 60 ativações. Consegui! Só que... eu passei a deixar, na tela do computador, o acesso aberto a dois aplicativos de trocas de mensagens. Aliás, já fazia isso antes, pois trabalho o tempo todo diante de um computador e digitar no teclado dele é bem mais rápido do que no telefone. O resultado foi que eu continuei tendo a concentração cortada continuamente por mensagens, continuei tendo uma grande dependência da tecnologia que vinha minando a minha capacidade de concentração e de produção. Decidi, então, tomar uma decisão quase radical: na tela do meu celular, quando bloqueado, não mais aparecerão mensagens ou notificações de qualquer tipo. Sou eu que decido quando quero acessar o telefone, ao invés deles decidir quando é que tenho que dar atenção a ele.

Chega! Tudo tem limite! Dizia John Lennon que a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo planos para o futuro. Pois, hoje em dia, a vida é o que acontece ao seu redor sem você notar, pois está ocupado dando atenção contínua a aplicativos de mensagens e redes sociais. O que há de tão urgente que não pode esperar meia hora? Que mensagem precisa interromper seu almoço ou seu momento de descanso? Se for alguma coisa realmente muito urgente, certamente você vai receber uma ligação. Se a sua empresa ou o seu chefe te obrigar a deixar ativado um aplicativo de mensagens, então que todos os outros contatos sejam silenciados.

Essa escravidão tem que acabar. Eu não sou contra redes sociais, não sou contra aplicativos de mensagens. Amo quase todos eles, de verdade, e dou um valor gigantesco à facilidade de comunicação que eles proporcionaram. Trabalho com tecnologia, gosto de inovações, enfim, estou muito longe de ser um reacionário analógico. Porém, como eu já disse, eu quero ter o poder de decidir se e quando vou olhar mensagens e redes sociais, o que só é possível silenciando essas notificações contínuas. Tomei essa decisão pela minha sanidade mental e pela minha qualidade de vida. Daqui a algum tempo, eu conto aqui se valeu a pena. 


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.








 
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