08/12/2019 às 08h30min - Atualizada em 08/12/2019 às 08h30min

Mudar ou mudar?

WILLIAN H STUTZ
“ (…) A praça! A praça é do povo/Como o céu é do condor
É o antro onde a liberdade/Cria águias em seu calor.
Senhor!... pois quereis a praça?
Desgraçada a populaça/Só tem a rua de seu...
Ninguém vos rouba os castelos/
Tendes palácios tão belos...Deixai a terra ao Anteu.(…)”
 
O Povo ao Poder (trecho) - Castro Alves
 
Enquanto a minha máquina pré-histórica, mas eficiente, bate a roupa com todos seus pulos e rangeres, me passou algo doido pela cabeça, que faço questão de compartilhar com você. Tenho pela certeza de que não deverei receber muitos “Likes” por isso, mas talvez uma chuva de “Unlikes” de todos os lados, tanto da direita. Estes unlikes serão muito bem-vindos e me servem como elogio vindos da tresloucada direita. Quanto aos da esquerda nervosa que não me conhece, quais também agradeço mas sugiro uma reflexão histórica. “Livre pensar” é só pensar já dizia Millor. Você vai entender, espero.

Quando cheguei a Uberlândia, há muito tempo, os nomes das ruas e praças eram referência para um jovem forasteiro vindo da capital planejada, onde só pelo nome  se identificava facilmente o bairro ou região.

Levei tempos, sou devagar para certas coisas, para saber com precisão qual era a Afonso Pena e qual era a Floriano. Isso sem contar que era só mudar prefeito e as mãos das ruas eram invertidas, provocando confusão em minha cabeça. E quer saber?  Até hoje faço confusão com os novos nomes das avenidas dos Andradas e Goiânia.

Não senhor, não senhora, não sou do tempo em que um lado da Getúlio Vargas se chamava Rio de Janeiro.

Isso dito vem meu espanto quando nossa esquerda adolescente, pueril, não de idade, mas de atitudes, coisas de tempos de DCEs da vida, quer, porque quer, mudar o nome da principal praça de Uberlândia na força. Contudo, não mostra nenhuma indignação se levarmos em conta o que o caudilho Getúlio Vargas fez, entre outras coisas, com a mulher de Prestes, Olga Benário a revolucionária, que lutava para ver o fim das desigualdades e das injustiças sociais, entregando-a de bandeja, grávida, à Gestapo. Nas mãos dos nazistas foi enviada para o campo de concentração de Bernburg, Alemanha, onde foi executada na câmara de gás, (ebiografia.com/olga_benario). Um exemplo de nome de logradouro público apenas. Porém, isso é passado. Deixa pra lá, devem alguns pensar. Talvez nem no holocausto devam acreditar. E se dizem de esquerda!

Tente perguntar por nome de rua no Bairro Santa Mônica. A resposta é quase sempre a mesma: Hummm, sabe o número da rua?

Nada imposto presta.

Agora, sem consulta popular sem plebiscito esclarecedor, assim na maior, mudam, para eles apenas, o nome de uma praça.

Quer trocar o nome de praça, rua, beco, travessa, pinguela ou seja lá o que for, se eu concordar ou a maioria da população assim quiser eu topo e assino embaixo. Porém, vamos primeiro eleger vereadores prontos, comprometidos com causas assim. Se bem que mudar nome de rua é uma especialização legislativa. DEMOCRATICAMENTE! E não apenas para atender a vaidade de uns poucos. Mudança na bruta? Sem apoio popular? Nem esquerda, nem direita! Tô fora!

Certa feita queriam fechar na calada da noite a rua em que eu morava. Criar uma rua particular. Depois de muita discussão entre moradores, votou-se. Fui voto vencido, mas avisei que TODOS deveriam estar presentes no dia e na manhã seguinte quando chegassem a polícia, a fiscalização municipal e imprensa. Avisei também que o pai da ideia não poderia sair sorrateiramente, daria as entrevistas e assinaria as notificações por empachamento de via pública, respondendo juridicamente pelo fato.

Idealizadores de pronto desistiram. Esopo* outra vez na minha cabeça, nitidamente veio a fábula Assembleia dos Ratos. Colocar o sino no pescoço do gato ninguém quer. Dar ideias e pular fora é fácil.

Repito, PÚBLICA. Do povo e não de meia dúzia. Respeito até a boa intenção, mas só isso não basta. Se resolvermos viver em comunidade, há regras. Simples assim.

Mas se por nada, nem ninguém, o respeito democrático não prevalecer e a mudança for a fórceps, deixo um pedido. Aproveitem e troquem o nome de minha rua para Rua do Glorioso Clube Atlético Mineiro Galo Forte Vingador. Podem manter o CEP.

Opa, deixa eu correr que a furiosa máquina se calou. Seu ciclo está completo e tenho que aproveitar uma nesga de sol em belos tempos chuvosos.

Nem tanto ao céu nem tanto ao mar meus queridos e queridas. Menos gente, menos! E que venham as pedradas. Brincando com (não) palavras de Riobaldo Tatarana, de Guimarães Rosa: Pensar é muito perigoso ou dói demais.
 
*Escritor da Grécia Antiga a quem são atribuídas várias fábulas populares


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 
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