04/12/2019 às 13h02min - Atualizada em 04/12/2019 às 13h02min

Você precisa de inimigos

FERNANDO CUNHA
Por quase 90 anos, a Índia foi submetida ao domínio britânico. Entre outras imposições, os indianos eram obrigados a comprar tecidos da Grã-Bretanha para confeccionar suas roupas. Outro produto fornecido exclusivamente pelo país dominante era o sal, usado para preservar e temperar os alimentos. À época, um homem, inconformado com aquela situação, convocou os cidadãos indianos a se dirigirem ao litoral oceânico para fazerem a dessalinização da água do mar e produzirem o seu próprio sal. O ato foi chamado de Marcha do Sal. O exército britânico tentou conter a ação, sem sucesso, pois a quantidade de indianos era bastante superior à de soldados ingleses. Este homem se chamava Mahatma Gandhi, que, anos mais tarde, conseguiu libertar o seu país dos colonizadores. Começou ali o maior movimento pacífico da história no combate à colonização. Estava bem claro para os seguidores de Gandhi quem era o seu maior inimigo. E mais ainda, por qual razão todos deveriam combatê-lo.

Dias atrás eu participei de um seminário, no qual se discutia a formação das diferentes culturas ao redor do mundo. Um dos palestrantes apresentou o conceito de comunidade, fazendo um comparativo entre o Brasil e a Itália. Diferentemente daquele país europeu, nós não possuímos as chamadas comunas, que, em termos gerais, são equivalentes aos nossos municípios, porém insubordinadas a esferas superiores de controle. É certo que algumas comunidades se formaram em alguns grandes centros brasileiros, mas sem autonomia própria em termos de emancipação. Outra diferença apontada pelo palestrante do evento se refere ao caráter fraternal e afetivo que une os seus habitantes. Nas verdadeiras comunas, de vários outros países do mundo, inclusive na América Latina, as pessoas se relacionam em torno do sentimento de pertencimento e na defesa por interesses afins.

Diante desse tema, resolvi pesquisar sobre algumas comunas já existentes no mundo e uma delas me chamou a atenção. A Comuna de Paris, fundada em 1871 na capital francesa, foi criada para combater a invasão encampada por parte do governo da Prússia. Foi o primeiro governo autônomo operário da história, apesar de não ter durado muito tempo. O ponto que pretendo abordar é a capacidade que algumas pessoas têm de liderar determinados movimentos e, com isso, atrair seguidores fiéis, inclusive capazes de entregar as próprias vidas por uma causa. Na atualidade, várias pessoas procuram defender algum tipo de manifesto. Acontece que, em sua maioria, estes “heróis” contemporâneos não apontam claramente qual é o “inimigo” a ser combatido. Já viu que todo super-herói possui um inimigo? O do Batman é o Coringa. O do Capitão América é o Caveira Vermelha. O inimigo do Homem Aranha é o Duende Verde.

Fazendo um paralelo com os super-heróis, todo líder precisa apresentar um “inimigo” à sua tribo para atrair seguidores afins e, efetivamente, iniciar um movimento. Este rival não precisa ser, necessariamente, uma pessoa. Pode ser uma ideologia, um segmento político, um produto concorrente ou um serviço. Um dos meus “inimigos”, por exemplo, é o medo que as pessoas têm de se apresentar em público. Através dele, ofereço maneiras práticas de combatê-lo. Dessa forma, acabo atraindo pessoas que possuem o desejo de enfrentar este mesmo inimigo. E você, qual o oponente que você pretende enfrentar? Quais são as pessoas do seu meio social que compactuam com a sua ideia? Como pode atraí-las? A identificação desses pontos é o primeiro passo para propagar o seu manifesto e dar início ao seu movimento, seja para se tornar líder de mercado em seu segmento ou líder social e político da sua comunidade, município ou região.

Se pretendemos galgar postos de liderança, inclusive no meio político, a nossa comunicação deve estar direcionada neste sentido. Devemos apontar para nossos possíveis seguidores qual é o nosso “inimigo” e dar-lhes um motivo nobre para enfrentá-lo. Para isso, sugiro que você responda a três perguntas que poderão ajudá-lo a se tornar um verdadeiro líder: 1) por que as pessoas devem me seguir? Se o seu grupo não tem um propósito para existir, não vai lutar com você; 2) qual a possível solução que apresento? De nada adianta falar de problemas sem apresentar soluções; 3) como posso me diferenciar dos demais? Devemos ser incomparáveis ao ponto de tornarmos a concorrência irrelevante. Aí sim, o seu produto, serviço ou marca pessoal será o ícone de um verdadeiro movimento, e não só mais uma opção entre tantas outras.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 
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