30/11/2019 às 10h00min - Atualizada em 30/11/2019 às 10h00min

Desbancarizados: nova mira do sistema financeiro

ANTONIO CARLOS
Na contramão do índice de desemprego no Brasil, que fechou o último trimestre estagnado em 11,8%, o trabalho informal segue quebrando todos os recordes. Atualmente, mais de 38 milhões de trabalhadores brasileiros atuam na informalidade, segundo dados do IBGE. O desemprego de 12 milhões de pessoas também contribui para um novo fenômeno na economia nacional: a desbancarização.

Os bancos são fundamentais à manutenção das atividades comerciais, pois suprem os recursos necessários para financiar o comércio, a indústria, as empresas prestadoras de serviços e as pessoas físicas. Além de oferecer serviços financeiros, essas instituições financeiras – privadas ou públicas – facilitam as transações de pagamento e oferecem empréstimos e financiamentos, desenvolvendo o comércio nacional e internacional.

No Brasil, de acordo com a pesquisa do Instituto Locomotiva, existem cerca de 45 milhões de desbancarizados. De cada três brasileiros adultos, um não movimenta a conta bancária há mais de seis meses ou opta por não ter conta em banco. Juntos, eles movimentam anualmente uma renda de R$ 817 bilhões. Esse montante injetado nos bancos ajudaria o país a sair mais rápido desta crise econômica.

Geralmente, os ex-bancarizados são de baixa renda e não tiveram boas experiências enquanto clientes, perdendo a confiança nas instituições bancárias. Depois de tentativas frustrantes no sistema formal, eles precisaram se habituar a receber os pagamentos em dinheiro, comprar fiado, negociar descontos com fornecedores e a usar cartão de crédito de amigos e familiares, caso necessário.

É uma fatia da população brasileira que historicamente vê os bancos como lugares inacessíveis: 60% dos ex-clientes de bancos não têm intenção de abrir uma conta novamente. Para os desbancarizados, é mais fácil controlar o dinheiro escasso com notas e moedas em mãos. Para os bancos, esse posicionamento representa uma perda considerável nas suas movimentações.

Pensando em conquistar esse público desconfiado dos bancos tradicionais, os bancos digitais investem para convencê-lo a trocar o dinheiro vivo por contas digitais. Amplia-se também a fatia de mercado das fintechs: startups que inovam e otimizam os serviços do sistema financeiro, com custos operacionais menores do que as instituições tradicionais do setor.

Em países desenvolvidos, como os Estados Unidos e a Austrália, onde a população é altamente bancarizada, as fintechs traçam estratégias para que as pessoas comecem a reduzir sua relação com os bancos tradicionais. Já aqui no Brasil, as fintechs de crédito (Nubank, Creditas e Neon, por exemplo) continuam mirando no topo da pirâmide: 93% dos seus clientes têm conta em banco.

Um ramo em expansão das fintechs é o das transações financeiras. Aplicativos de pagamentos de boletos e transferências, como o PicPay e PagSeguro, são cada dia mais recorrentes no nosso dia a dia. O PicPay já contabiliza 12 milhões de usuários, majoritariamente jovens de 18 a 34 anos. Segundo Gueitiro Genso, presidente da fintech, o próximo passo é conquistar os desbancarizados.

Outro desafio para bancos tradicionais e fintechs são os 12% dos sem-banco (algo em torno de 5 milhões de brasileiros) com idade superior a 60 anos. Deste recorte, apenas um terço acessa a internet. Embora viva cada vez mais, essa parcela dificilmente irá se bancarizar ou buscar formas digitais para gerir o seu dinheiro. Surge, assim, uma oportunidade de demanda a ser atendida.

Pensando estrategicamente...  boa parte das pessoas que não têm conta em banco são empreendedores (ambulantes e trabalhadores autônomos) e poderiam estar inseridas na economia formal, girando a engrenagem. A desbancarização é extremamente negativa para a nossa economia. Todavia, ela também é resultado do posicionamento elitista dos bancos tradicionais, que não dialogam com esses ex-clientes.

Mesmo sem um vínculo com o sistema financeiro, as pessoas ainda poderão acessar as ferramentas para pagar contas, fazer transferências e investimentos. Na corrida pelos sem-banco, confiança é a palavra-chave. Há uma intensa vigília dos bancos e fintechs para conquistar esses 45 milhões de brasileiros desbancarizados e mostrar que o dinheiro guardado embaixo do colchão pode mofar.


*Esta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.



 
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