01/12/2019 às 13h00min - Atualizada em 01/12/2019 às 13h00min

Uma droga que trata a AIDS pode curar a infecção pelo Zika vírus

ANGELA SENA PRIULI

A ciência tem dessas coisas...
 

Hoje é dia de lembrar que o vírus da AIDS continua assombrando o mundo sim, ainda que muitos países não se dediquem tanto mais à conscientização das novas gerações, que têm sido cada vez mais infectada pelo HIV. Um dos motivos das pessoas terem banalizado esse vírus foi o avanço e o sucesso que as drogas anti-retrovirais incluídas nos famosos "coquetéis" tiveram em prolongar e dar mais qualidade de vida aos "soro-positivos". Ainda que não tenhamos a vacina anti-HIV disponível, o tratamento foi um grande benefício para a população, pois em paralelo ao desenvolvimento dele muitas outras doenças causadas por infecções virais podem ser tratadas. No caso do nosso "causo" de hoje, o Zika vírus, um agente infeccioso mais recente para nossos ouvidos e corpos, parece ser alvo dessas drogas anti-HIV também! 

 

Em um novo estudo publicado na revista Molecular Therapy, os pesquisadores da Filadélfia (Temple University & Comprehensive NeuroAIDS Center - Lewis Katz School of Medicine) relatam que um medicamento usado no tratamento do HIV também suprime a infecção pelo vírus Zika. Em modelos animais e cultura de células humanas, eles mostram que a droga, chamada rilpivirina, interrompe o vírus do zika, atuando sobre enzimas que tanto o vírus HIV, quanto o Zika, dependem para sua replicação. Importantíssimo dizer que essas enzimas também são necessárias para o sucesso da infecção de outros vírus intimamente relacionados ao Zika, incluindo os que causam dengue, febre amarela, febre do Nilo Ocidental e hepatite C.

 

Historicamente raro e isolado em partes da África e Ásia, o vírus Zika agora está presente nas Américas e ocorre em várias outras regiões do mundo. Atraiu uma atenção crescente nos últimos anos, devido a seus efeitos prejudiciais ao cérebro e ao sistema nervoso. O vírus é transmitido aos seres humanos por mosquitos. Uma vez no corpo, infecta as células e se replica, normalmente residindo nas células dos tecidos neurais. Em casos graves, a infecção pelo vírus Zika pode causar uma condição auto-imune conhecida como síndrome de Guillain-Barré, que culmina em paralisia muscular. Os bebês nascidos de mães infectadas durante a gravidez podem sofrer atrasos no desenvolvimento neurológico e podem ser afetados pela microcefalia (pequenez anormal da cabeça).

 

Para replicar dentro das células, o vírus Zika requer uma enzima chamada NS5 RdRp. Usando biologia estrutural e estudos computacionais, Eleonora Gianti, PhD, professora assistente de pesquisa no laboratório do Dr. Klein - um dos cientistas responsáveis pela pesquisa, conseguiu mostrar que a rilpivirina impede a replicação viral, ligando-se especificamente ao domínio NS5. Para isso, a equipe realizou experimentos em ratos, os quais os animais foram infectados com o vírus Zika através das patas, semelhante à maneira como uma pessoa é infectada pela picada de um mosquito. Os ratos infectados pelo vírus Zika normalmente ficam muito doentes em cerca de uma semana e acabam morrendo. "Descobrimos, no entanto, que quando tratados com rilpivirina, os animais sobreviveram, sugerindo que a rilpivirina interrompeu o curso usual de infecção do vírus", disse Dr Gordon, outro cientista responsável. 

 

"Agora temos um caminho claro a seguir", disse Dr Khalili. "Temos um ponto de partida a partir do qual podemos encontrar maneiras de tornar esses medicamentos ainda mais potentes e mais eficazes contra os flavivírus". As epidemias envolvendo infecções por flavivírus, particularmente HIV, zika, dengue e hepatite C, freqüentemente se sobrepõem geográfica e temporalmente. Os pesquisadores estão animados e consideram que as aplicações potenciais deste trabalho recente são enormes.

 

Não deixemos de nos prevenir contra as infecções sexualmente transmissíveis, como a AIDS e a hepatite C, pois não temos vacinas e viver sob tratamento não é a melhor escolha para a saúde! Mas vamos celebrar os avanços que o mundo da ciência traz ao buscar alívio para tais doenças. 

 

Fonte:

Ilker Kudret Sariyer, Jennifer Gordon, Tricia H. Burdo, Hassen S. Wollebo, Eleonora Gianti, Martina Donadoni, Anna Bellizzi, Stephanie Cicalese, Regina Loomis, Jake A. Robinson, Vincenzo Carnevale, Joseph Steiner, Mehmet H. Ozdener, Andrew D. Miller, Shohreh Amini, Michael L. Klein, Kamel Khalili. Suppression of Zika Virus Infection in the Brain by the Antiretroviral Drug Rilpivirine. Molecular Therapy, 2019.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.









 

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