29/11/2019 às 08h00min - Atualizada em 29/11/2019 às 08h00min

“Tempos de Errância” - poesia dolorosa

DANIELE PIMENTA | ATRIZ, DIRETORA E DOCENTE DO CURSO DE TEATRO DA UFU

O espetáculo “Tempos de Errância”, do Núcleo 2 – coletivo de teatro, é uma experiência instigante desde o início: o ator Guilherme Conrado nos recebe e, em pouco tempo, instaura um interessante jogo de cena, no qual introduz o personagem de Narciso Telles, como se o materializasse para nós, e pudesse interferir em sua trajetória, de uma outra dimensão poética.
 
Parte desse encantamento, gerado pela direção de Dirce Helena de Carvalho, está no contraste entre a atitude sem afetação de Guilherme e a complexidade da composição de Narciso. Deleite estético que, por si, seria muito prazeroso para o público, não fosse a rápida imersão no ambiente de morte, abandono e desesperança que a atuação de Narciso e a direção de Dirce constroem, a partir do texto de Rosyane Trotta. Na atuação detalhista, com o rio constante (mas, a água, pouca) e o calcanhar que não pisa, a cena é densa poesia encardida.
 
Esse encantamento pelo contraste se perde na cena em que Guilherme espalha roupas/corpos aos pedaços. O jogo dos planos se rompe pela presença de um personagem/tempestade, assumidamente estilizado, que coloca o ator numa dimensão de afetação cênica, anulando o jogo das dimensões distintas. De cá, o desejo era que toda a primeira parte permanecesse no jogo de contrastes. E a poesia encardida; e a água, pouca; e o calcanhar que não pisa.
 
No segundo quadro, novamente Guilherme nos conduz e nos vemos em outra perspectiva poética da situação anterior: a história de cada fragmento dos corpos/memórias cravados na lama do rio.  As roupas espalhadas, pela própria matéria alinhavadas ao primeiro quadro, são rememoradas e lamentadas pela carpideira, em momentos de triste e inusitada beleza, concebidos por Mario Piragibe e presentificados pelas mãos e atuação de Guilherme. Poderíamos ter alternadas as dinâmicas de condução da cena, já estabelecidas no primeiro quadro, de forma a nos concentrarmos na evocação de vida dada às peças de roupa preparadas para a manipulação, enquanto outras seriam simplesmente guardadas, pelo mesmo ator, diminuindo a dilatação excessiva do tempo e evitando a consequente previsibilidade do jogo, pela  definição dos focos que as diferentes atitudes revelariam.
 
O terceiro quadro conecta os anteriores à realidade de nosso país. Nos tira de um vôo estetizado por uma américa latina de violência e nos coloca no chão, de frente com o nosso presente. A construção da desesperança se dá por uma atuação sem desesperos, na medida exata para que ouçamos a narrativa da perda, sem gritos, sem contorções ou lágrimas, com a clareza que se torna possível pela tristeza calejada. Vemos o ator, que lê, e enxergamos o pai, que sofre. Teatro!
 
É importante destacar a simplicidade eficiente da iluminação - concebida por Camila Tiago e executada por Duda Borges – e do figurino – de Letz Pinheiro. Uma composição visual que define as atmosferas da cena, sem excessos que desviem a atenção de suas camadas narrativas.
 
A trilha sonora, criada pelo coletivo e operada, em cena, por Karina Silva, é uma presença basal: as gravações preenchem e percorrem todo o espetáculo, com uma colagem de sonoridades que, ora nos envolve, ora nos fere - pela insistência ou pela dor dos relatos.
Ah! E que bom ver tantos jovens na equipe de produção de um trabalho maduro!
 
Mas, quem dera, o trabalho, em sua poesia dolorosa, tratasse apenas do passado.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.










 

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