26/11/2019 às 08h12min - Atualizada em 26/11/2019 às 08h12min

Antropologia? É de comer ou passar no cabelo?

VALÉRIA MARTINS | DOCENTE DE ANTROPOLOGIA NA UFU

Pode parecer um pouco leviano de minha parte colocar este título no texto, e peço a compreensão de meus colegas antropólogos, mas trata-se de uma pequena provocação, efeito de certo espanto diante do razoável desconhecimento da área nestas paragens.   
Muitas vezes, quando pessoas me perguntam onde dou aula e respondo “na Antropologia”, elas ficam em silêncio, me olhando, e então costumam perguntar: “É na História?”. Ou ainda “É na Filosofia?”. E eu respondo: “Não, é na Antropologia mesmo”, explicando em seguida que a Antropologia é uma área de conhecimento específica. Costumo dizer ainda sobre a configuração do curso de Ciências Sociais na Universidade Federal de Uberlândia, apontando que aqui o curso abarca três áreas de conhecimento. Não, não é um curso de Sociologia. É um curso de Ciências Sociais, que reúne as áreas de Antropologia, Ciência Política e Sociologia, e que forma os estudantes como cientistas sociais.

Em outras universidades, as configurações são diferentes. Para ficarmos no Brasil, temos por exemplo o caso da universidade de nossa capital, a UFMG, em que o estudante faz prova para cursar a graduação em Antropologia, formando-se como antropólogo. No caso da Universidade de Brasília (UnB), que ao lado do Museu Nacional (UFRJ) tem o programa de pós-graduação em Antropologia mais destacado do país, os estudantes ingressam na graduação em Ciências Sociais e após alguns semestres optam pela habilitação em Antropologia, formando-se também, assim como na UFMG, como antropólogos.

Não, a Antropologia não é de se comer ou de se passar no cabelo, pelo menos não literalmente. Trata-se de uma área científica de conhecimento, com associações nacionais e internacionais que reúnem pesquisadores de todo o mundo. E o que seria a ciência antropológica? O que ela estuda? 

A Antropologia é uma ciência social, e uma ciência humana. Com isso podemos dizer que ela estuda tudo o que está relacionado à vida humana, do início ao fim, do nascimento à morte. E também que o faz considerando o ser humano a partir de agrupamentos, coletivos, e não a partir de uma perspectiva individual (como seria o viés da Psicologia, por exemplo). 

Do nascimento à morte pode incluir o pós-morte, se considerarmos concepções diferenciadas sobre o que nos acontece após essa experiência, e ainda o pré-nascimento, levando em conta, por exemplo, ideias sobre a concepção de pessoas. E inclui todas as relações que construímos ao longo da vida em contextos e momentos diversos: no âmbito da nossa família, nossa infância, escola, amizades, namoros, casamentos, trabalho, lazer, velhice... Então refletimos por exemplo sobre aprendizado, afetos, relações de poder etc.

Outro elemento chave na Antropologia é a questão da diferença, ou seja, a percepção de que os variados coletivos ao redor deste planeta Terra constroem e vivem suas experiências – as citadas acima, por exemplo − de forma bastante diversa. Como é o processo de aprender a falar em uma região do Mali ou em outra, no Canadá? Ou como se costumam estabelecer relações conjugais considerando-se diferentes grupos sociais?

Ao lidar com essas diferenças, a Antropologia ressalta que é importante valorizá-las, e não percebê-las a partir de hierarquizações ou preconceitos. Esta ciência considera que as sociedades não são “melhores” ou “piores” umas em relação a outras, pois os critérios para estabelecer considerações desse tipo não se sustentam. Eles não são universais, ou seja, variam de uma sociedade para outra: o que é visto como “bom” ou “melhor” por uma pode ser visto como “ruim” ou “pior” por outra.

Uma série de áreas temáticas são delineadas, na Antropologia, para dar conta dessa variedade de experiências e concepções. Várias dessas temáticas estão configurando novas disciplinas que teremos no nosso curso a partir do próximo ano, fruto de uma reforma curricular, como Antropologia da saúde, Antropologia das emoções, Antropologia do corpo, Antropologia da religião, Antropologia da mídia, Antropologia da ciência e da tecnologia, Antropologia da arte etc. 

Ofertá-las é um modo de tentar contribuir tanto para o (re)conhecimento da múltipla atuação desta ciência quanto, especialmente, de tentar contribuir para que possamos cultivar um mundo diverso e que seja, ao mesmo tempo, pautado pelo respeito mútuo.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.










 

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