21/11/2019 às 07h59min - Atualizada em 21/11/2019 às 07h59min

Assim é a vida

IVONE GOMES DE ASSIS

Flamboyant! Esta é a palavra que define o encanto que vem abraçando Uberlândia, Brasília e outros estradões brasis, nesta estação. Em sua total exuberância, os flamboyants, com seu colorido de beleza rara, surpreendem os olhos dos bons observadores. Colore, o olhar; cativa a alma. É como se convertessem o momento em poesia.

Se falássemos do “Delonix Regia”, em sua essência científica, talvez essa árvore gringa não passasse de um fuste tortuoso, forte e comprido, uma vez que chega a alcançar até 12 metros de altura, cujas raízes destroem tubulações de água, trincam muros, calçadas, paredes, tanques, varandas... pior, desafiam a rede elétrica para um duelo. Mas não seria isso sua defesa? Sua busca por liberdade? Acaso, isso não faria parte da identidade de um flamboyant? Ora, ora, nada, nem ninguém, se faz 100% completude, porque são os 50% de vazio, que reservamos para a reflexão, que nos tornam críticos e capazes de comparar, para, assim, percebermo-nos capazes (ou não). Somos todos flamboyants.

De volta à beleza do flamboyant, deparamo-nos com sua belíssima cabeleira “ruiva” ou “amarela”, que se espalha por sobre o tronco, tão imponente que, ao longe, mais avistamos um guarda-chuva floral, sob o sol quente da primavera no cerrado brasileiro.
O flamboyant, que passa a maior parte do ano sem folhas, nem flores, ressurge na primavera, para chegar ao ápice de sua beleza bem no meio da estação, avisando que o verão se aproxima. Esta planta poética nos remete a Cecília Meireles, quando, em seu poema “Desenho”, anuncia: “Fui morena e magrinha como qualquer polinésia, / [...] E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras, / e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam. // Isso era um lugar de sol e nuvens brancas, / onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas... / O eco, burlão, de pedra, ia saltando, / entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas. // [...] Minha vida começa num vergel colorido, / por onde as noites eram só de luar e estrelas. / Levai-me aonde quiserdes! – aprendi com as primaveras / a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira”. (Cecília Meireles, In: Mar Absoluto).

O ícone literário mineiro psicanalista, educador e teólogo Rubem Alves é outro que, tendo uma infância ilustrada pelos flamboyants, presenteia o leitor com a planta musa de seus escritos. Por exemplo, em “O olhar adulto”, Rubem Alves anota: “Os olhos da criança vão como borboletas, pulando de coisa em coisa, para cima, para baixo, para os lados, é uma casca de cigarra num tronco de árvore, quer parar para pegar, [...] depois é uma vagem seca de flamboyant, pedindo para ser chacoalhada, assim vai a criança, à procura dos que moram em todos os caminhos, que divertido é andar [...]”.

Também o conto “Fazenda Santa Elisa”, em sua obra “Do universo à jabuticaba” (2010, p. 70-71), Rubem Alves declara: “Depois é um flamboyant, com sua imensa copa. Faz muito tempo, deitado sob um flamboyant, tive umas ideias esquisitas. Olhei para suas minúsculas folhinhas e pensei que talvez cada uma [...] fosse um universo. Haverá tantos universos quanto folhas de flamboyant? Os físicos andam desconfiados [...]. E seremos nós, o nosso universo, apenas uma folhinha de flamboyant desse flamboyant sem fim que é o universo? Quem sabe se naquela folhinha -universo há um homem deitado debaixo de um flamboyant... Tudo é relativo [...].

Ainda mais intenso, Rubem Alves (no jornal "Correio Popular") em um bate-papo com os clássicos, apresenta-nos “Os Flamboyants”, “Paramos. Papeamos. Ele [...] me confidenciou: ‘Vou fazer uma surpresa para a Julieta. Ela adora os flamboyants. E eles estão maravilhosos. Vou fazer um álbum de fotografias de flamboyants para ela...’ [...] Fotografias de flamboyants vermelhos — que coisa mais romântica! Árvores em chamas, incendiadas! Cada apaixonado é um flamboyant vermelho! [...] As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida.”.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.







 

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