05/11/2019 às 07h59min - Atualizada em 05/11/2019 às 07h59min

Impressões sobre Rê-Bordosa

ALINE ROMANI

Não poderia começar de outra forma, senão apelando para minhas memórias afetivas. Foi na infância que tive contato pela primeira vez com histórias em quadrinhos. Minha tia, professora de português, fazia coleção de gibis. Eu, crescendo em uma cidade do interior, mergulhava em suas revistas pra fugir do tédio. Naquele tempo, meados dos anos 90, não havia uma preocupação tão rígida em censurar quadrinhos para crianças. Bons tempos! E foi assim que conheci Rê Bordosa. Eu era uma garota de 10 ou 11 anos e achava graça naquela mulher desajustada, que era diferente de todas as tias da escola ou da igreja, no fundo eu achava que ela era mais feliz do que as mulheres que conhecia. Mesmo sem referências para uma leitura mais profunda, a personagem me intrigava.
 
Na faculdade, fui reapresentada a Rê Bordosa, uma amiga me apelidou com o nome da personagem. Aos 19 anos, vivia a busca por autoconhecimento e reafirmação sexual. Nós mulheres não somos orientadas ou ensinadas a decidir por nós. Não desejamos, somos desejadas. As vezes parece que não temos domínio de nossas decisões e nos pesam padrões conservadores que nos foram impostos. Dizem por aí que mulher tem que casar, ter filhos, cuidar do lar e se der, ser independente financeiramente.
 
Mesmo diferente, Rê Bordosa era triste e desajustada. A cada quadro, cada tirinha, cada página, a busca por ser uma mulher livre continuava e nunca se consolidava.

Rê Bordosa é uma personagem pensada por um homem. Ela é triste porque não encontra seu caminho, ela reproduz um comportamento masculino e machista. Essa mulher não aceita mais cumprir com as expectativas dos homens, ela também quer prazer a todo custo. Toda mulher já foi uma Rê Bordosa, talvez não em público, talvez em silêncio. Porque é difícil se tornar mulher potente em um mundo de referências masculinas.

Angeli matou sua personagem, por incomodo, estranhamento, inveja e obsessão. Ela se tornou maior que ele, seu autor e criador, seu dono. Mulheres sexualmente livres o assustavam, como ele mesmo já declarou em entrevista. Rê Bordosa abriu caminhos para uma geração que queria ser mulher e não sabia como, no entanto, ela precisava morrer para que outras mulheres contassem suas histórias.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 

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