02/11/2019 às 08h00min - Atualizada em 02/11/2019 às 08h00min

América Latina em chamas!

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA

Neste mundo globalizado, a América Latina vem demonstrando a sua heterogeneidade econômica e política, principalmente nos últimos meses, acalorada pelas eleições presidenciais de vários países. As mazelas trazidas desde o período da colonização, apesar da proximidade territorial, individualizaram cada povo e suas estruturas sociais e culturais. A contemporânea onda de manifestações populares sul-americanas comprova isso.

A América Latina compreende a quase totalidade das Américas do Sul e Central. Sua região abriga os países que falam, primordialmente, línguas derivadas do latim (espanhol, português e francês), uma vez que suas terras foram dominadas pelos impérios espanhóis e portugueses. Os demais países do continente americano tiveram uma colonização feita por povos europeus de cultura anglo-saxônica ou neerlandesa (América Anglo-Saxônica).

Historicamente favorável às modernizações, a América Latina encontra-se em chamas graças à privatização do seu território e a alienação liberal da sua economia. As ruas lotadas de manifestantes lutando pela democracia revela que existem dois fatores comuns no continente: a desvalorização do trabalho e a busca pela mais-valia. Com uma pobreza em ascensão, e visível aos olhos do mundo, os latinos precisam reescrever uma nova história.

Em nações onde a democracia não é vigente e as eleições livres não são um direito reservado ao povo, os governos alternam muito, geralmente pela força. Na maioria dos países da América Latina, os representantes políticos foram ou ainda são determinados pelas forças armadas. Essa ditadura já ocorreu em boa parte da história política latino-americana, em países como Bolívia, Equador, Honduras, Paraguai, Peru, Argentina, Venezuela e Brasil.

As mudanças efervescentes no atual contexto político da América Latina, rumo a uma unidade progressista, são compartilhadas pelos quatro cantos do planeta. No Chile, os protestos populares nas ruas de Santiago não são apenas contra o preço da passagem do metrô. A revolta popular nasce da extrema desigualdade social no país e falência dos sistemas públicos de previdência, educação e saúde, quase todos privatizados.

Todavia, as revoltas populares não são exclusivas do Chile. Cerca de um milhão de equatorianos ocuparam a Plaza Itália (Quito) em repúdio às medidas antipopulares tomadas por Lenín Moreno, atual presidente da república. Na Bolívia, Evo Morales se reelege pela quarta vez, mas, devido às acusações de fraude eleitoral, sua vitória não é reconhecida pelos Estados Unidos e pela União Europeia – e nem pelos próprios bolivianos.

O Uruguai terá segundo turno na eleição presidencial, que ameaça pôr um fim na hegemonia dos governos de esquerda e mudar drasticamente o cenário político do país. Já na Argentina, o presidente recém-eleito, Alberto Fernández versa com as pautas populistas e assistenciais, prometendo dar prioridade para a saúde e educação pública, deixadas ao léu pelo governo de Mauricio Macri.

As manifestações nos países vizinhos causam preocupação aqui no Brasil. O governo teme possíveis confrontos violentos fomentados pela forte polarização política no país. Além disso, os novos governos eleitos irão romper com a antiga política externa da América Latina. Tal fragmentação custará caro a economia, uma vez que as relações exteriores entre esses países se dão em função de orientações ideológicas da gestão de cada líder político.

Pensando estrategicamente... a perspectiva decolonial se debruça em elementos fundamentais para a compreensão do lugar da América Latina no Sistema Internacional. A imposição política dos EUA vem perdendo força entre os povos latino-americanos, especialmente nos países como Bolívia, Argentina, Uruguai, Equador e Chile.

Legítimos, os ciclos político-econômicos revigoram os preceitos da democracia, com esforços constantes para ser preservada abaixo da Linha do Equador. Ao passo que a guinada liberal-conservadora da América Latina representa retrocessos em pautas morais, sociais e ambientais, ela pode colaborar para o equacionamento de desequilíbrios econômicos.

O neoliberalismo contemporâneo poderia desmontar elementos do histórico subdesenvolvimento institucional da região. A colonização material e espiritual de cinco séculos exige uma engenhosa adaptação dessa ideologia. Contudo, somente o tempo nos dirá se essa retomada progressista na região repercutirá no cenário brasileiro.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 

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