03/11/2019 às 11h00min - Atualizada em 03/11/2019 às 11h00min

Crises et Circenses

ALICE GUSSONI
Foto: Marcel Gussoni

Estava fazendo uma “enquete interna”, uma reflexão sobre qual assunto mais li, ouvi e falei nos últimos meses. Crises. Sem sombra de dúvida foi o tema mais recorrente. Elas estão por toda parte. Na economia, na política, no esporte, na religião e até mesmo dentro da sua casa. Digitei no Google “crise” e a lista foi bem eclética: Crise mundial, crise existencial, crise de ansiedade, crise de pânico, crise 2019, crise na Venezuela, crise econômica. Blergt!

Mas o que são? De onde vem? Do que se alimentam? A princípio, conhecemos a palavra “crise” carregada de uma conotação horrível, estamos acostumado a ouvir essa má notícia nos telejornais. Mas a etimologia da palavra significa “momento de decisão”, ou “mudança súbita”.

O Império Romano desenvolveu uma política pública chamada Panem et Circenses, onde as balbúrdias do governo eram de alguma forma mascaradas, ou recompensadas, com a distribuição de trigo à população. Além de construções de arenas onde aconteciam espetáculos sangrentos, jogos, acrobacias e afins. Assim, a sociedade se mantinha distraída sobre as crises que aconteciam no governo.

Panis et Cirsenses também foi uma canção de Caetano e Gil, lançada na época da ditadura militar, como uma crítica aos valores culturais da sociedade da época que reprimiam as transformações e mudanças aspiradas pela juventude. Então, se voltarmos a etimologia da palavra, essa juventude almejava simplesmente uma boa crise.

Vamos olhar esse tema por um campo de visão mais amplo. Segundo a antroposofia, nossa vida passa por períodos organizacionais de sete anos, que acontecem principalmente através do impulso das crises. Quando crianças, nossos dentes começam a cair e crescer. Quando adolescentes, temos bombardeamentos hormonais. Assim seguimos em uma vasta sequência de acontecimentos que trazem algum enorme desafio existencial a ser resolvido e digerido, uma batalha a ser vencida, para em seguida, começarmos mais fortes a viver um novo momento. 

A monja Zen Budista Charlotte Joko Beck, em um dos livros que considero mais brilhantes, “Nada Especial”, usa como analogia a metamorfose da lagarta para borboleta, o casulo da dor, para mostrar a potência da crise como transformação de vida. Sendo a borboleta um ser tão lindo, presumimos que toda sua existência seja bela. Não a imaginamos caminhando lentamente como uma asquerosa e peluda lagarta, que se estaciona em um ponto, enrolada em si mesma, sem socializar, comer ou beber. Passa dias se liquefazendo e solidificando até virar outro bicho, um bicho lindo por sinal, que tem asas e não mais rasteja. Graças a uma pequena batalha fisiológica em suas células, no seu pequeno casulo de dor. Parece cena de Tim Burton, mas é a história real de nós mesmos. Quem nunca se sentiu uma gosma encasulada, só esperando o momento de criar asas e voar?

Em outro maravilhoso livro, “Ostra feliz não faz pérola”, Rubem Alves diz que não é toda ostra que cria essas preciosidades. Apenas aquelas que sofrem. Aquelas onde um grão de areia entrou, causando grande incômodo. Para essa aspereza do grão não a machucar, ela acaba criando essa cápsula lisa e macia. Muitos sábios estão nos mostrando que a crise é o combustível para transformação.

Na alquimia, algum “problema” calcinado, que está petrificado em sua condição, precisa ter o ar incorporado em suas células, quebrando-o, para depois permitir que o fogo o queime, até que se funda e assim chegar à solução alquímica. O mesmo acontece na cozinha. Nós pegamos os ingredientes, despedaçamos em partes menores, levamos ao fogo e eis que a magia da transformação acontece. Se não fosse essa pequena crise alquímica dos ingredientes, muitas delícias nunca chegariam até nossas bocas. E para celebrar a crise em seu “bright side of the moon”, seu lado de luz, a receita de hoje é pura beleza e delícia.
 
Salada de Pipoca de Arroz Vermelho
 
Ingredientes
– 1 xícara de arroz vermelho
– 3 colheres sopa azeite (usei azeite de alecrim)
– sal
– 10 aspargos
– 200 g tomate cereja
 
Maionese de limão e azeite (não leva ovos)
 
Ingredientes
– 1 limão
– 4 colheres (sopa) de azeite
– 4 colheres (sopa) de leite
– óleo de girassol
– ervas
– sal
 
Preparo
Em uma frigideira, aqueça o azeite e o arroz vermelho, mexendo sem parar até estourar as pipocas. Reserve. Branqueie os aspargos, colocando em água fervente por 5 minutos e em seguida na água gelada. Corte-os em rodelas. Corte os tomatinhos em 4. Misture todos os ingredientes e sirva-os em copos.

Prepare o molho colocando todos os ingredientes em um liquidificador, e tirando o centro da tampa, com o liquidificador ligado, deixe cair um fio de óleo até chegar ao ponto de maionese.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 

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