31/10/2019 às 08h17min - Atualizada em 31/10/2019 às 08h17min

Final da Libertadores no Chile: falta de empatia!

TIAGO BESSA

 
Quem acompanha os noticiários diariamente, de forma atenta, sabe que o Chile passa por uma onda de protestos em sua capital, Santiago. Um país tido como um “oásis” na América do Sul (nas palavras de seu presidente, Sebastián Piñera), de repente se vê envolto em uma crise que revela sua fragilidade econômica oriunda de um neoliberalismo agressivo e desumano. O presidente chileno anunciou um aumento no preço das tarifas do metrô na ordem de 30 pesos, o que se configurou em uma gota d’água para o começo de protestos populares.

Entenda, caro leitor: o dólar custa, no Chile, algo em torno de 755 pesos; os valores de aluguel, em grandes centros urbanos chilenos, aumentaram mais de 150% nos últimos dez anos; as tarifas de fornecimento de energia elétrica aumentaram 10,5% em maio e 8% em julho deste ano; não há sistema público de saúde no Chile; o número de universidades públicas no país é bastante reduzido; as cúpulas do exército e das polícias chilenas são acusadas de se apropriarem indevidamente de um montante de cerca de 45 milhões de dólares; a previdência chilena é “administrada” por uma empresa privada. Concordemos que não tem sido fácil viver por lá.

Feito o resumo acima, reflitamos: é, de fato, um momento justo para se realizar uma final de Libertadores em Santiago? É saudável que se explore o potencial turístico desta cidade enquanto parte da população chilena padece de tantos problemas? Penso que realizar esta final por lá neste momento é, no mínimo, falta de empatia e de bom senso por parte da Conmebol. E penso também que o Flamengo e o River têm a obrigação de se manifestarem contra a miséria desta falta de empatia. Boa parte da população chilena sequer conseguirá assistir ao jogo no estádio, dados os elevadíssimos preços dos ingressos.

Mesmo que o Chile não estivesse nesta situação (que o Brasil deve tomar como um exemplo visionário), devemos considerar uma outra questão que passa pelo bom senso: chilenos e argentinos possuem uma rivalidade que ultrapassa deveras os campos de futebol. Qual o sentido em permitir a existência da possibilidade de ações hostis entre “torcedores” de ambos os países, em um evento que deveria ser somente festivo e dominado pelo verdadeiro espírito esportivo?

A impressão cada vez mais forte que tenho é a de que vivemos um grande circo de horrores chamado América Latina, dominado pelos personagens mais bizarros e desumanos. Que miséria, a nossa!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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