25/10/2019 às 08h40min - Atualizada em 25/10/2019 às 08h40min

Masterclé: Castigat mores ridendo (análise crítica da peça Citu)

MARIO FERREIRA PIRAGIBE | PROFESSOR DO CURSO DE TEATRO DA UFU
Foto: Divulgação

Volta e meia me pego refletindo sobre a mania que temos de atribuir às artes um caráter educador. É bem conhecida a propriedade da arte de refinar o espírito e de ampliar nosso repertório de experiências, mas há quem acredite que a sua mera proximidade redime pecados, confere capacidades extraordinárias e superioridade existencial. O artista, esse então, é visto como divindade materializada cujos insights não são menos que verdades indiscutíveis, ainda que por vezes não pareçam fazer muito sentido. Podem assim discorrer sem revisões sobre cirurgia cerebral, física quântica, movimentos das marés e macroeconomia com tal liberdade que a menor das objeções que se lhes faça é rebatida com indignação furiosa e acusações de autoritarismo.

O fato é que a arte pode ser, sim, uma sábia professora, mas nem sempre da maneira como se imagina; já os artistas, esses são confusos, frágeis, ordinários, profundamente dependentes do apoio dos outros, menos livres do que julgam – exatamente como todo o mundo. Suas qualidades individuais, seus grandes talentos – quando os têm – decorrem bem menos do fato de haverem sido tocados pela arte, do que por qualquer outro motivo. Mas a Arte permanece como uma das mais poderosas invenções humanas, o nosso espelho mais confiável.

Precisei fazer essa digressão para conversar sobre o espetáculo Masterclé, cujo título evoca ao que poderia ser uma aula, que quase se parece com uma aula, quase usa os espectadores como estudantes em uma aula e, no entanto, nos mostra no mundo como só o teatro consegue. Montado pela Cia. Rapa de Arroz a partir do texto homônimo de Luiz Alberto de Abreu, a peça brinca de discutir arte e comportamento humano com inteligência, sob a forma de um tecido vertiginoso de contraposições: popular e erudito; risível e sério, verdade e representação, belo e grotesco, lição e diversão. Trata-se de uma palestra, ou melhor: a tentativa do proferimento de uma palestra sobre a comédia por um acadêmico (desempenhado por Rafael Michalichem) em um teatro. Esse espaço é habitado por tipos cômicos e grotescos: a técnica de quem apenas se ouve a voz (feita por Tamara dos Anjos), o zelador Bocarrão (Edu Silva) e um casal de atores (Wesley Nunes e Rose Martins) designado para ilustrar aspectos da apresentação, e de fato não se discerne se as interrupções e complementações feitas por estes atrapalham ou abrilhantam as tentativas da personagem palestrante de, exasperado, levar adiante a sua douta apresentação.

A fina inteligência do texto de Abreu, e a leitura precisa da diretora Daniele Pimenta tornam simples uma proposta bastante sofisticada de entrelaçamento de planos. Pois se a aula é uma peça e o palestrante uma personagem em uma comédia, as aparências seguem revelando-se seus avessos. O linguajar acadêmico não é apenas o tom da palestra; é também a subversão paródica das comédias populares, a crítica necessária a tudo o que é instituído.

Cego ao fato de que as intervenções hilárias feitas pelos habitantes do teatro materializam e dão sentido às citações da sua palestra, o Acadêmico se converte em tolo, alvo da troça. Situações hilárias e absurdas se sucedem de modo que nenhum sentido se extraia da peça fora da sua aceitação como jogo.

Masterclé é uma lição: de que o riso redime e redimensiona a existência, que critica o poder e os costumes independente das cores ideológicas que os suportam, e que a arte ensina pelas experiências que proporciona, não pela eloquência das mensagens dos iluminados de ocasião.

E eu mencionei que a peça é engraçada pra diabos?

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 
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