22/10/2019 às 08h45min - Atualizada em 22/10/2019 às 08h45min

Vida de médico

ANA MARIA COELHO CARVALHO

Meu pai era médico. Estudou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, fundada por D. João VI. Não sei o porquê, por volta de 1915, quando se formou, foi parar em Campos Altos, na época uma currutela. Durante cerca de 30 anos foi o único médico do local. Fazia de tudo. Era daqueles médicos que tinha um pouco de pai, de amigo e de anjo. Curava a dor do corpo e da alma. Escutava os pacientes, auscultava os pulmões, examinava o corpo com as mãos. Não pedia nenhum exame, não existia laboratório na cidade. Diagnosticava só de apalpar, observar e escutar.

Fez inúmeros partos naturais, nunca fez uma cesariana, era tudo mais simples, com parteiras. Receitava elixir paregórico e poções manipuladas na única farmácia. Distribuía para todos remédios de amostra grátis, junto com calor humano e esperança. Na porta do consultório, que era bem simples, havia uma placa com os dizeres: “Dr. Luiz de Souza Coelho. Médico. Atende chamados a qualquer hora” (doei a placa para o meu filho, como lembrança do avô). Além de médico, era o chefe político do PTB na região. Foi o primeiro prefeito da cidade e houve época em que andava protegido por “jagunços”, personagens do passado. Quando morreu, deixou uma caderneta grossa, onde anotava as dívidas dos pacientes, pois quase ninguém pagava a consulta. Minha mãe, a viúva, herdou a caderneta e mais nada. Depois, como homenagem, deram ao posto de saúde da cidade o nome dele.

Hoje a medicina está muito diferente. Exames sofisticados, aparelhos de última geração, remédios mil, planos de saúde, especialidades nunca antes sonhadas. Mas parece que os médicos nunca têm tempo para escutar os pacientes, ou estão muito cansados, ou ganham tão pouco por cada consulta, que tudo tem que ser muito rápido.

Tenho dois filhos médicos e fico escutando os casos. Gostam da profissão. Um é otorrinolaringologista. Ele já retirou do ouvido e do nariz dos pacientes objetos diversos, como feijão, tento, baratinha, lacrainha, espuma, caroço de azeitona, tarrachinha de brinco, plástico da tampa de requeijão. Sugeri fazer um quadro e pendurar no consultório. Poderia fazer com ele uma plástica no meu rosto (ele é bom nisso), tirar as rugas, as pelancas do pescoço, repuxar os olhos. Mas gosto das minhas marcas do tempo.

O outro é ortopedista. Pelo que entendi, opera os ossos com aparelhos tipo martelo, serra, furadeira, broca, parafusos, um horror (espero nunca precisar dos serviços dele). Às vezes ele está tão cansado, olhos vermelhos, pernas inchadas, que penso que a medicina é mesmo um sacerdócio.

E me lembro de médicos que precisam de esforço sobre-humano para atender casos como daquele menininho que, como eu soube, foi tratado no HC da UFU. O pai ficou desesperado quando a esposa o deixou e ateou fogo em si e nos dois filhos. Ele e um filho morreram, mas o outro, de oito anos, sobreviveu, com cerca de noventa por cento do corpo queimado. Perdeu os dedos das mãos e dos pés e já passou por inúmeras cirurgias de enxerto de pele. Tem também o caso da menininha de quatro anos, atendida no HC. A madrasta bateu em sua cabeça com uma panela de pressão, seccionando a coluna cervical. Foi presa, mas a criança ficou tetraplégica. São tantos casos como esses, tantas crianças anônimas passando por tantas dores...E ao lado delas, médicos tentando salvar vidas. Que Deus os conserve, lhes dê saúde, coragem, sabedoria e retidão de caráter. E se não for pedir muito, que todos saibam ser médicos de homens e de almas.

Parabéns a todos os médicos neste mês de outubro, quando se comemorou o Dia do Médico!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.






 

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