20/10/2019 às 11h00min - Atualizada em 20/10/2019 às 11h00min

Ode aos cinco sentidos

Foto: Marcel Gussoni

Esses dias fiz uma descoberta que virou meu brinquedo preferido: audiobooks. Encontrei aplicativos com uma vasta lista de livros narrados, às vezes até pelo próprio autor. Para mim foi um grande achado, porque pude ler livros que estavam há anos na minha lista de espera. Para mim, ler é um daqueles grandes prazeres que vão aos poucos perdendo lugar para as prioridades da vida adulta. Nesses aplicativos você pode ouvir Clarice Lispector narrado por Fernanda Montenegro e Fernando Pessoa por Antônio Fagundes, enquanto lava a louça ou faz sua caminhada pelo parque.  

Depois de ter lido, ou melhor, ouvido tudo que podia, comecei a escolher minhas próximas histórias pela capa. Sem saber exatamente do que se tratava a história, mergulhei em um romance cujo protagonista era um deficiente visual. Taí uma experiência que só um livro pode te dar: descrever a vida através de um ponto de vista completamente diferente do seu.

Nesse caso então, o escritor narra com precisão de detalhes todos os sons, cheiros e sensações que constroem um cenário que nunca vivi. E somente através das palavras, pude me colocar no lugar de quem não enxerga absolutamente nada.

Agora ouço esses livros enquanto trabalho, me pego influenciada pelo universo daquelas histórias. Então fechei os olhos e tentei finalizar o que estava fazendo sem o auxílio da visão. Estava dando acabamento em uma peça de cerâmica. Depois, levantei, e ainda sem enxergar, tentei ir beber água. Digo “tentei” porque realmente tudo foi um fiasco. A gente não tem a real noção do que é não poder ver. Do desespero que pode ser tentar atravessar uma rua, apenas com o auxílio dos outros sentidos.

Me lembrei de uma cena que vivi quando eu morava em Roma. Lá era comum encontrar deficientes visuais sendo auxiliados por cães guia. Estava voltando da aula, dentro de um ônibus. Estávamos passando por um enorme cruzamento, daqueles bem caóticos onde pedestres, lambretas, bicicletas e carros se entrelaçam num emaranhado incompreensível.

Um deficiente visual esperava pacientemente na faixa de pedestre. Acredito que seu cão guia deva ter se confundido no caos, deixou-se levar por ver outras pessoas que se arriscavam a passar por entre os carros, porque começou a atravessar com seu dono enquanto o sinal estava ainda vermelho. Ônibus onde eu estava tentou parar bruscamente, produzindo um altíssimo ruído de freio. Aquele pobre ser, completamente no escuro, ouvindo o barulho ensurdecedor se aproximando, ficou paralisado. Ele tinha no rosto a expressão de terror de quem sente e espera pelo grande impacto. De desespero imóvel de quem espera pelo fim. Que afortunadamente não aconteceu. Muitas pessoas dentro do ônibus caíram com a parada brusca. Mas aquele homem e seu cão foram salvos. Desde então é como se eu tivesse ganhado de presente uma grande empatia. A gente nunca dá muita bola para isso. Mas vou deixar aqui uma semente, um trecho do Google em forma de convite para você fazer profunda amizade com essa palavrinha:     
 
EMPATIA
substantivo feminino
1. Faculdade de compreender emocionalmente um objeto (um quadro, p.ex.).
2. Capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela.
3. Capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.
 
A receita de hoje é uma homenagem aos cinco sentidos, em gratidão à beleza de poder ver, sentir o perfume, saborear e degustar essa maravilha. Receita do Sabor Sonoro.
 
RECEITA PAVLOVA COM FRUTAS VERMELHAS

Pavlova
– 300g de açúcar de confeiteiro
– 1/2 colher de chá de amido de milho
– 6 claras
– 1 colher de chá de suco de limão
– Morangos, amoras e hortelã a gosto*
 
*O morango também foi no recheio, picado junto com o creme, então pode comprar uma boa quantidade. Claro que você também pode variar as frutas de acordo com a estação e sua preferência.

Cobertura de Iogurte e Cream Cheese
– 200g de cream cheese
– 200g de iogurte natural (sem açúcar)
– 80g de açúcar
– Sementes de 1 baunilha em fava (se não tiver, use uma colher de sopa rasa de essência)
– 1/2 limão siciliano (raspas e suco)
  
PREPARO
- Pavlova
Em uma batedeira bata as claras em velocidade baixa até espumar. Acrescente o suco de limão, e assim que a clara esbranquiçar, acrescente lentamente o açúcar e o amido de milho peneirados. Bata por mais ou menos 5 minutos em velocidade alta, até as claras formarem picos bem firmes.

Hora de assar: forre com papel-manteiga uma forma bem grande (ou duas pequenas como eu fiz) e faça dois discos do mesmo tamanho (+/- 20cm cada). Legal deixar o meio mais raso e as bordas mais altas em um deles para colocar o recheio. Pré-aqueça o forno e asse por 3 horas a 150°, mas fique de olho: quando formar uma casquinha levemente dourada na superfície e o centro não estiver mole, está pronto.

Se veio direto para a receita, leia as recomendações que coloquei mais acima sobre essa parte. É muito importante! Deixe esfriar completamente no forno. A minha dormiu lá dentro.
 
- Cobertura de Iogurte e Cream Cheese
Esta é muito fácil: bata todos os ingredientes na batedeira ou com um fouet até conseguir um creme homogêneo. Pronto!
 
Agora é montar: use como base o disco que você deixou mais fundo no meio para colocar metade do creme e uma xícara de morangos picados.

Coloque o outro disco em cima e cubra com o restante do creme, finalize a cobertura com os morangos, amoras e folhas de hortelã.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 
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