17/10/2019 às 08h02min - Atualizada em 17/10/2019 às 08h02min

O Tostão tem razão!

TIAGO BESSA

Desde criança, quando comecei a tomar consciência de que o futebol não é “só” um esporte coletivo - e, portanto, de partilha -, mas envolve negócios, politicagem e gente velhaca, venho acompanhando as reflexões do velho Tostão. Ele foi um jogador muito inteligente, tendo se destacado principalmente no Cruzeiro e na Seleção brasileira, da qual foi titular na campanha do Tri. Encerrou a carreira aos 26 anos, por conta de um problema na retina, e tornou-se médico aos 34 anos, formando-se pela UFMG.

Nos anos 1990 o Tostão passou a figurar entre os grandes comentaristas e colunistas do futebol, obtendo rapidamente uma cadeira cativa no panteão dos pensadores do nobre esporte. Consciente de que os esportes profissionais refletem, de modo sintomático, nossas relações sociais, o Dr. Eduardo tem se manifestado com acentuado descontentamento a respeito da atual fase do futebol brasileiro. Eu, particularmente, compartilho de suas reflexões. Não quero, de modo algum, fazer apologia à nostalgia ou ao saudosismo, comparando o futebol de hoje com o de antes. Porém, tenho ciência de que serei rotulado de tal maneira pelos leitores menos atentos.

Nosso futebol reflete, atualmente, a mentalidade do brasileiro médio que pretende enfiar goela abaixo da população suas ideias lotadas de lugares comuns, sem profundidade e isentas de senso crítico. A cada partida de futebol, principalmente as da Série A que possuem transmissões massivas, percebe-se claramente um futebol lugar comum, pouco inteligente, entediante, burocrático e, principalmente, chato. A exemplo da mentalidade do brasileiro médio, nosso futebol tornou-se medíocre e conservador, fazendo com que os torcedores se contentem com migalhas de uma ou outra boa jogada individual.

O Flamengo será o campeão por ser o único time cujo técnico e elenco abriram mão do medo. O medo que acovarda, cada vez mais, nossos outrora criativos jogadores e cerebrais técnicos. O medo que desvia a atenção das crianças e adolescentes para o status quo das marcas de chuteira, dos penteados estilosos (há controvérsias), dos sonhos de consumo, sem ao menos se darem conta de que muito provavelmente nunca serão jogadores de grandes clubes (e talvez de clube algum)! O medo travestido de egoísmo, que faz com que muitos aspirantes a jogador se esqueçam da principal característica do futebol: a coletividade.

O brasileiro médio não quer o futebol das massas, das antigas gerais do Mineirão e do Maracanã. Sua preocupação é ostentar uma foto do ingresso de um jogo nas redes sociais, cujo preço está muito distante da realidade da maioria dos trabalhadores. A limpeza étnico-social das nossas arquibancadas combina com o fracasso do nosso futebol.
Dá-lhe, Tostão!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 
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