11/10/2019 às 08h39min - Atualizada em 11/10/2019 às 08h39min

Manifesto Teatral PULSE!

MARA LEAL | ATRIZ E PROFESSORA DE TEATRO (UFU)

05 de outubro de 2019. Ao entrar no Grupontapé de Teatro, o público é observado pelos atores que usam máscaras de Mickey Mouse e Minnie, ao fundo vemos uma projeção antiga da mais famosa animação da Disney. Mas não se engane, o que virá a seguir não é para crianças. Trata-se do Manifesto Teatral PULSE!, escrito e dirigido por Rafael Lorran com o Coletivo Teatro de Viés. Lorran escreveu o texto mobilizado pelo massacre ocorrido na boate gay PULSE em 2016 (Orlando, EUA), quando um homem armado entra na boate e mata 50 pessoas. O crime hediondo é considerado “o maior ataque em massa contra homossexuais neste século”.

Para tratar do tema em seu manifesto, Lorran usa de vários dispositivos cênicos e dramatúrgicos como o teatro documentário, com histórias pessoais das vítimas e relatos de sobreviventes, desenvolvendo a partir dessas informações cenas ficcionais para nos aproximar desses personagens reais assassinados. Mas também se vale de dispositivos de distanciamento, como coralidades, narrativas, paródias musicais de clássicos dessas festas dançantes, estatísticas e quebras de cenas para que nós, espectadores, tenhamos um olhar distanciado, para que possamos refletir sobre esse acontecimento e tantos outros crimes de ódio contra a comunidade LGBTI+. Para isso, também se inclui relatos de casos atuais de assassinatos em Uberlândia e região.

Ao apresentar um caso emblemático e distante geograficamente de nós, também nos lembra que, infelizmente, não é um fato isolado, mas um marco cruel do que pode gerar a cultura do ódio às diferenças, sejam elas sexuais, de gênero, raciais, culturais ou religiosas. No caso, além de um ato homofóbico também se trata de um crime étnico, pois acontecia na boate uma noite latina, um encontro festivo da comunidade hispânica norte americana. Lamentavelmente, pouco tempo depois, ascende à presidência dos EUA um homem totalmente alinhado a esses ideários xenófobos e excludentes. Ao olhar para fora, como num espelho, nos vemos.
Nessa narrativa, o coro tem papel fundamental, ao reiterar informações fundamentais, dando um tom trágico e ao marcar o tempo cronológico dos acontecimentos: a ação da peça se inicia 12 horas antes do massacre, seguimos juntos com as personagens até o terrível e inevitável fim. Sabemos o que irá acontecer e não podemos fazer nada, assistimos paralisados e incrédulos. Que esse incômodo diante do implacável fato histórico possa nos mobilizar a nos reconhecer nas diferenças, pois o grupo nos lembra que há muito a ser feito, ao nos atualizar de crimes tão próximos, como os narrados pela assistente de direção e sonoplasta Ana Paula Basílio nessa noite: “A travesti Júnia Franco, de 30 anos, foi encontrada na madrugada do dia 29 de setembro deste ano em uma estrada de terra no bairro Morumbi, na cidade de Uberlândia. O corpo estava sobre uma poça de sangue, ao lado de uma bicicleta. A vítima estava com 13 perfurações pelo corpo.”

Por fim, não posso deixar de destacar o importante papel pedagógico que esse trabalho comporta. Oriundo de uma disciplina de Atuação do Curso de Teatro da UFU, devido à mobilização dos atores, a montagem segue sendo apresentada desde sua estreia em 2017, mesmo com a distância de Lorran, que atualmente é diretor de teatro na UFPR, em Curitiba. Nesse processo formativo para além da sala de aula, um dos atores, Alessandro Cardoso, assumiu a assistência de direção, eles se constituíram como um coletivo de teatro, que aprende junto, como os erros e acertos de um fazer cotidiano, descobrindo a dor e a delícia de se fazer arte, de produzir e se autogerir.

Nesse percurso - 22 apresentações em Uberlândia, região e em outros estados - alguns integrantes saíram, outros entraram, como Mariana Mendes, aluna do curso de música, que de espectadora se tornou diretora musical. Ela relata: “Fui na estreia e chorei em cada cena [...] Também queria homenagear os meus iguais assassinados naquela noite, queria mostrar que me lembrava deles.” Como disse Lorran numa entrevista, os atores seriam potencialmente as vítimas desse massacre, pois se reconhecem nesses personagens e aprendem com eles que a VIDA é nosso maior bem e que TODAS importam.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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