13/10/2019 às 08h10min - Atualizada em 13/10/2019 às 08h10min

Fábula com PH

WILLIAM H STUTZ

Esopo contava como se fosse sapo, mas se assim tranquilo fosse, o sapo iria comer o escorpião, pois é um de seus grandes predadores. Aliás, esse era o motivo do bicho querer atravessar o rio. Ficou sabendo que do lado de lá tinha muita cobra e onde tem cobra sapo não canta, pois vira janta. Já de cá era uma saparia danada e ele vivia andando pelos cantos a se esconder. Assim, lá foi ele buscar recurso para atravessar aquela imensidão de água. Se fosse nos dias de hoje seria fácil, bastaria  se misturar a alguma mudança que iria tranquilamente parar do outro lado, sem maiores problemas.

Aí veio La Fontaine e misturou tudo. Sabem como é, quem conta um conto acrescenta um ponto e assim vai. Fica do jeito que cada um quer. A travessia aconteceu de fato, mas foi feita por uma tartaruga que, velhaca que só, também veio com aquele papo de não levar o escorpião, pois temia ser picado no meio do rio e assim morreriam os dois.

O escorpião retrucou. Como vou te picar cara! Primeiro, seu casco é duro como pedra e, mesmo que eu quisesse, apenas o arranharia.  Não estou a fim de virar comida de peixe, caso você se sentisse ameaçado. Segundo, se estou fugindo de sapo não vou querer parar dentro d’água.

Além do mais, como vou saber se você não vai me sacanear, mergulhando atrás de um casco de saia ou de algum peixe apetitoso?
Tem lógica, pensou o quelônio. Se lento no andar, era veloz em pensar. Durante a travessia a conversa foi nascendo. Lembraram da história da cigarra e da formiga, que se matou de trabalhar, mas que, com as reformas na previdência, não conseguiu se aposentar. Por conta disto ficou a ver navios e viver de trocados como agente da cigarra. Esta, mesmo com os cortes na área da cultura e com um ministro sem noção, conseguia pontas em novelas e talk shows. Assim, logrou comprar casinha nos estertores do projeto Minha Casa Minha Vida. Com isto ainda cedeu um quartinho nos fundos para a formiga descansar os ossos e o corpo, todo doído de tanto carregar peso vida afora e nunca conseguir uma consulta no SUS para se tratar.

Falaram do sapo que queria ficar do tamanho de um boi e que se lascou de tanta bomba, pensa, anabolizantes de todo tipo. Até de cavalo tomou. Resultado? Também está na fila do SUS no aguardo de um transplante de fígado. Depois de muito falar da vida alheia, lá pelo meio do rio…. Não, não houve a sacanagem da ferroada.  Rolou foi a ideia de montarem um negócio de travessia com o nome TartaEscorpion Transportes Náuticos and Rescue. Nome em inglês dava mais moral e já que o presidente humano era obcecado por tio Sam, poderiam até pedir um adiantamento no BNDES. Ficariam ricos, já que o bicho homem estava de sacanice com a natureza, com total vista grossa ao fogo e represas. O empreendimento poderia ser tipo um SAMU de bichos, nas horas de sufoco. E, quando tivesse tranquilo, fariam passeios turísticos ou de guerrilha, levando bichos para atormentar as gentes.

A tartaruga balançou a cabeça várias vezes, molhou a boca e retrucou: Meu, você é bom de negócios! Numa simples travessia criamos uma parceria. Qual o segredo de tanta imaginação? Ah, cara! Quatrocentos milhões de anos aqui no planeta, você tem que ver a negociação que meus ancestrais fizeram com um meteoro. Convenceram a figura a bater na terra bem no meio da península de Yucatán, no México, originando a cratera de Chicxulub e acabar com tudo, menos com os de minha espécie e as baratas que eram e são até hoje nossa  mais saborosa comida. Foi um período bem legal, sem concorrência, gente ou políticos. Pena que durou pouco, apenas alguns milhões de anos. Tínhamos acabado de sair da água, mas a bicharada em terra era imensa e feia que doía. Então, nasceu a ideia de termos o planeta só pra nós. Bons tempos, bons tempos.

Cara, vocês eram fera para negócio desde Cretáceo! Na verdade, era o início do Paleógeno, corrigiu o escorpião. Imagina que bom pra nós, pois no começo foram dois anos de total escuridão. Bom demais! Ai, além de tudo, um monstro de conhecimentos essenciais! Sua ideia é simplesmente genial! Tô dentro! Começamos quando? Animou-se a tartaruga.

Que nada, minha amiga cascuda! Nosso negócio será apenas uma startup, “essa é a minha natureza e nada poderia ser feito para mudar o destino.” Vamos rachar de ganhar grana mano!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.





 

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