26/09/2019 às 08h30min - Atualizada em 26/09/2019 às 08h30min

Vida

IVONE GOMES DE ASSIS

Desde 2015, o Brasil adotou o “Setembro Amarelo”, para os esforços da sociedade em prol da vida. Esta ferramenta contra o suicídio traz campanhas diversas, convidando as pessoas ao reencontro consigo. Pois, de acordo com Tedros Adhanom Ghebreyesus, da Organização Mundial da Saúde (OMS), em publicação no portal das Nações Unidas, em 09/09/2019: “Um suicídio ocorre a cada 40 segundos no mundo”. Apesar da importância do “Setembro Amarelo”, apenas 38 países o aderiram até agora. “Suicídio é a 2ª principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos” (EBC), sendo o segundo principal motivo de morte entre meninas-mães e o terceiro entre os meninos pós-acidentes de trânsito e violência interpessoal (EBC). É preciso orientar a juventude para que aprendam a lidar com os problemas naturais da vida, pois a morte por suicídios é problema evitável.

De acordo com o “Global Health Estimates”, a taxa de suicídio é maior nos países ricos; sendo o suicídio a segunda principal causa de morte entre jovens. Em 2016 foi 10,5 / 100 mil pessoas (países de baixa e média renda) contra 11,5 / 100 mil (países de alta renda), sendo que destes, são quase 3x1 suicídios homens x mulheres.

Em “A literatura e a vida”, Gilles Deleuze (1993, p. 13-14) escreve: “O mundo é o conjunto dos sintomas cuja doença se confunde com o homem. A literatura aparece, então, como um empreendimento de saúde: não que o escritor tenha forçosamente uma saúde de ferro (...), mas ele goza de uma frágil saúde irresistível, que provém do fato de ter visto e ouvido coisas demasiado grandes para ele, fortes demais, irrespiráveis, cuja passagem o esgota, dando-lhe contudo devires que uma gorda saúde dominante tornaria impossíveis. Do que viu e ouviu, o escritor regressa com os olhos vermelhos, com os tímpanos perfurados. Qual saúde bastaria para libertar a vida em toda parte onde esteja aprisionada pelo homem e no homem, pelos organismos e gêneros e no interior deles?”

Afinal, como é possível se manter equilibrado face ao horror? Por exemplo, Sarah Kofman e Primo Levi, usuários da palavra escrita se suicidaram, e Robert Antelme e Jorge Semprun, também usuários do mesmo tipo de palavra, se mantiveram vivos. Como entender o suicídio? Levi e Kofman sobreviveram graças ao poder de escrever e, possivelmente, perderam a vida pela mesma razão. Já Antelme e Semprun fizeram da escrita o fio da vida.

Desse modo, podemos entender que o (des)equilíbrio de cada um é mais profundo que a causa avistada. Na bela explanação de Deleuze, o autor fala da eficiência e do valor da escrita, mas não esconde que isso é insuficiente para que entendamos o obscuro motivo do suicídio.

O poeta português José Sobral de Almada Negreiros, em “A taça de chá”, escreve: “O luar desmaiava mais ainda uma máscara caída nas esteiras bordadas. E os bambus ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com ele a adivinharem-lhe o fim [...]”. Aqui o poeta narra a morte, enquanto Mia Couto, em “Idades”, narra a brevidade e fragilidade da juventude, a luta e o equilíbrio do adulto, e o contentamento e o conformismo do velho. “No início, eu queria um instante. A flor. / Depois, nem a eternidade me bastava. E desejava a vertigem do incêndio partilhado. / O fruto. / Agora, quero apenas o que havia antes de haver vida. A semente.”.

Ambos são poemas de amor, mas profundamente aplicáveis na vida em geral. A palavra é moldável, passível de interpretação, por isso, independente do meio, o importante é a forma do uso. A palavra pode ser veneno ou remédio. Não há literatura inocente, não há discurso inocente, não há música inocente, não há palavra inocente... A palavra é faca de dois gumes, portanto há que se saber interpretar. Mais que isso, há que se observar a interpretação. Por isso, o diálogo saudável é tão importante, porque ele é quebra-cabeças passível de remodelamento até que todas as peças se encaixem, dando brilho à vida.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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