24/09/2019 às 08h50min - Atualizada em 24/09/2019 às 08h50min

Por que gravamos?

ENZO BANZO

Quando eu era criança pequena lá nos anos 80, nosso sonho era gravar um disco e cantar na televisão, fosse no “Xou da Xuxa”, no “Globo de Ouro” ou no “Cassino do Chacrinha”. Oh, Terezinha. O século virou, tudo mudou, e agora, José? As gravadoras ruíram em sentido inversamente proporcional à expansão do digital, o que tornou possível gravar e publicar sem um grande contrato com a indústria fonográfica. Lançar um disco, hoje, não tem nada a ver com o anseio do estrelato. Se isso não nos trará dinheiro e fama, eu te pergunto, oh minha amada, oh meu amado, por que gravamos? Eis a interrogação que me ronda enquanto preparo um disco novo, e enquanto acompanho os lançamentos que jorram toda sexta-feira nas plataformas digitais. Três trabalhos de artistas aqui das nossas bandas apontam a busca para uma possível resposta.
 
Lançado na última das sextas, o título do álbum "Desaguar", de André Salomão, gravado em Araguari, nos dá o sinal: "quer desaguar", conclui a faixa que dá nome ao disco e o inicia. Desaguar a própria vida na suavidade do canto, esta é a meta de Salomão. Tal vazão da lavra artística não corresponde, entretanto, a um gesto egoísta que se resolve em si mesmo. Quer o outro, convida o ouvinte: "vem comigo". A "Esperança de você" da melodiosa segunda faixa parece se dirigir não só ao par amoroso, mas a qualquer pessoa que se embale em suas canções: "você vai entrar no abraço, vai sentir que sempre esteve ali, esquecer todo cansaço, por um minuto ou dois se permitir". O "desaguar" de André é sobretudo "Oferta", nome de outra de suas belas composições: "toma sem culpa, toma sem medo, toma sem pena de mim".
 
Voltando algumas semanas na corrente dos lançamentos, encontramos o audacioso "Mímesis", de Fernanda Vital. A artista foi daqui para São Paulo, numa viagem de busca por uma sonoridade sonhada. E deu um tiro certeiro ao convidar Bruno Buarque (que tocou e toca com gente como Céu, Karina Buhr, Anelis Assumpção e Tatá Aeroplano) para a produção do disco. O resultado é uma impecável paisagem sonora, na qual o sentido de "Mímesis" se desenvolve não como ideia de representação, mas de transformação: o "verde da mata" no verde dos olhos, o "canto de peixe" no "azul de céu e mar sem fim". Neste cenário, convivem composições que flertam com a tradição popular e os timbres eletrônicos sintetizados, gerando um amálgama entre tempos futuros e ancestrais, em um movimento transcendente que convoca o corpo no ritmo iminente da dança.
 
Se estes são álbuns de compositores, é preciso falar ainda de um disco de banda, que é sempre uma coletividade de aspirações individuais. Um grupo que incorpora bem este impulso é o Cinema Invisível, que lançou em junho o EP "Seu nome". Neste, um desejo-necessidade-vontade de música-arte-vida é evocado, sobretudo, na pungente balada "Louco". A melodia vai e volta, sobe e desce, na declaração de um querer (explícito na repetição da expressão "eu quero" nos versos da última estrofe) que se confirma como ato e ação pelo próprio canto rouco e vivo, em conjunto à melodia da guitarra. Nada de contenção: "meu sentimento é fogo, é faca, afaga e faz estrago". Nada de bons modos: "se for preciso eu grito, eu choro, eu mordo, eu cuspo em tudo". Nada de estabilidade: "eu quero a rua, o mar e o risco, a corda bamba".
 
Se isso não nos deixará ricos, gravar canções tem a ver, sobretudo, com o desejo-necessidade-vontade de converter a vida em obra, a obra em vida. Concretizar a criação artística é materializar o próprio ato de viver, superando-o: "vivo até na morte", como canta o Louco do Cinema Invisível.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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