19/09/2019 às 07h59min - Atualizada em 19/09/2019 às 07h59min

Neto e seu espírito de ostra

TIAGO BESSA

Comecei a gostar de futebol por causa de um cara registrado como José Ferreira Neto. Eu tinha entre 7 e 8 anos de idade e assistia a um jogo na TV quando ele fez um golaço de bicicleta em plena final de Campeonato Paulista contra o Corinthians, jogando pelo Guarani. No ano seguinte ele foi para o Palmeiras e eu, ainda impressionado com aquele gol, comecei a torcer para o alviverde paulistano, para quem torço até hoje. Pouco depois ele foi para o Corinthians e se destacou bastante, pelo menos até 1990. Fez muitos gols bonitos – principalmente de falta – e teve algumas oportunidades na seleção do técnico Falcão. Lembrei-me, inclusive, que ele jogou pela seleção contra a Bulgária aqui no Parque do Sabiá em 1991, partida que assisti da arquibancada com meu pai, tendo o Brasil vencido por 3 a 0 com 2 gols do Neto.

Mas, infelizmente, ele tem conseguido apagar de minha memória toda a admiração que eu lhe reservava, com a coleção de pérolas que ele produz diariamente na TV. Entenda, leitor, que são pérolas no sentido mais pejorativo e jocoso que a esta palavra pode ser atribuída. Na última segunda-feira suas vítimas foram o Cássio, goleiro do Corinthians, e o Daniel Alves, lateral do São Paulo. Ele, a grande ostra do jornalismo esportivo brasileiro, não poupou críticas ao multicampeão goleiro corintiano e, como se não bastasse, cometeu o despautério de afirmar que “jogou mais” do que o Daniel Alves.

O Cássio falhou. FALHOU, ora bolas!!! O único jogador que nunca falhou foi aquele que nunca entrou em campo. Massacrar um goleiro que ganhou os mais importantes títulos da história de seu clube e que ainda tem muito a oferecer por onde jogue, é desonestidade. Tomar um “frango” é um erro infinitamente menos relevante do que cuspir no rosto de um árbitro, não é mesmo?

O Daniel Alves, por sua vez, “joga mais” do que o Neto sob vários aspectos: cronologicamente, pois tem uma carreira maior do que a dele, que parou de jogar aos 33 anos; em termos de títulos, pois os mais importantes que o Neto ganhou foram 2 Paulistas e 1 Brasileiro, ao passo que a lista dos títulos importantes do Daniel nem cabem nesta coluna; na Seleção Brasileira, pela qual o Daniel jogou 116 partidas, contra 26 do Neto. O único quesito em que o Neto vence o Daniel é quanto ao número de gols na carreira, mas, pudera: ele era meia atacante e o Daniel é lateral.

O Neto cumpre um papel importantíssimo para os anseios da mídia de massa brasileira: polemizar por polemizar. Ele diz qualquer absurdo sem um raciocínio prévio, hiperboliza suas qualidades da época de jogador, expressa-se com dificuldades (o que para o brasileiro médio é uma qualidade) e, como resultado, gera enorme audiência. Ele é a própria expressão do brasileiro médio no jornalismo esportivo: a presunção da vitória da ignorância!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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