17/09/2019 às 09h08min - Atualizada em 17/09/2019 às 09h08min

Do amor, pouco sei

NANDO LOPES

Lembro que, quando criança, ouvia os mais velhos dizerem aos mais jovens recém-apaixonados: “para o amor, é preciso tempo e cuidado”. Eles diziam estas palavras com a autoridade daqueles que já se machucaram e curaram por amor, repetidas vezes. Falavam, com as vistas cansadas por ilusões, contrariando o frescor do amor em seus primeiros dias de encanto. Testemunhavam e sabiam não serem escutados pelas gerações mais jovens. Quando adolescentes acreditamos sermos donos do tempo e detentores da razão.
 
Acerca do tempo, nada desafia mais o ciclo da vida do que as esperas acotoveladas nos intensos dias de juventude: a euforia por detrás de cada descoberta, as escolhas indecisas sobre a vida adulta, o ímpeto de ser aceito pelos seus, as expectativas depositadas em uma festa e a sensação de que tudo pode se diluir em um piscar de olhos. Quantas coisas nós perdemos ao longo dos anos por falta de cuidado. Tantas vezes suspiramos ao recordar as aventuras dos primeiros dias. Tempo em que acumulávamos desejos e expectativas sobre os dias futuros. E, no calor dos dias, o outro surge diante nossos olhos, tão diferente de nós.
 
Chega de repente e atravessa nosso espaço. Passa e rouba a nossa atenção feito susto. Seguimos com os olhos desajeitados e tampouco sabemos como agir diante de sua presença. Deixamos de lado a visão lógica do dia a dia em favor das multicoloridas sensações. E, ao fitá-lo vindo em sua direção, você jura que encontrou alguém diferente dos demais. Alguém que te faz usar as expressões “ficar juntos”, “para sempre” e “a cada dia mais e mais”. Como se a vida inteira coubesse nas fagulhas precipitadas dos dias longínquos que ainda não chegaram. Quando tampouco nós sabemos o que destino nos reserva.
 
Do amor, pouco sei. Quisera eu dominar suas teorias pouco prováveis. Compreender suas reações químicas pouco compreensíveis. Entender seus desfechos pouco verossímeis. Quem sabe eu pudesse recorrer ao espaço do lirismo em que, em vez de explicado, o amor apenas existe entre nós. São do poeta Mario Quintana os versos de que tomo por empréstimo: “Se tu me amas, ama-me baixinho/ Não o grites de cima dos telhados/ Deixa em paz os passarinhos/ Deixa em paz a mim!/ Se me queres, enfim,/ tem de ser bem devagarinho, Amada,/ que a vida é breve, e o amor mais breve ainda/”.
 
Alegro-me ao ler “Bilhete”, publicado no livro Esconderijos do Tempo de Mario Quintana. Nele encontro a delicadeza de um amor que escapa as elucubrações do tempo e do cuidado. Amor que poucas vezes compreendemos. Afetos que surgem e se perdem no cotidiano entre encantos e desencantos. Histórias que acontecem em momentos inesperados, que tanto se desfazem nas páginas do tempo, como também ganham novos contornos e se fortalecem na medida em que vivemos ao lado de pessoas queridas. Sentimentos embaralhados por esperas, desistências e (des) encontros. E que nos deixa a sensação que é tudo muito breve, passa tão rápido quanto o cruzar do outro frente aos nossos olhos.
 
O amor. Como prever se o nobre sentimento é capaz de resistir às ações do tempo, se após uma vida inteira ainda tão pouco nos entendemos e nos surpreendemos com as atitudes do outro. Preferível não deixá-lo prescrever em meio às horas vagas e as mágoas que oxidam as melhores histórias. E se as tessituras de um amor romântico forem somente mera invenção, que possamos em sua teia escapar da indiferença que nos embrutece a cada dia. Se o tempo passa tão rápido, melhor seria desfrutá-lo do lado das melhores companhias. Cuidar do amor em seus melhores dias. Uma hipótese.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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