12/09/2019 às 08h20min - Atualizada em 12/09/2019 às 08h20min

Pedacinho da saudade que ficou

IVONE GOMES DE ASSIS

Do sofá da sala observávamos uma pombinha no alto do telhado, chocando seus ovos. Do outro lado, apesar do sol escaldante, o pombo-pai fazia sentinela, para proteger sua família. Era a vida daquele filhote se preparando para chegar e cumprir seu papel nesta Terra.

A vida, bem sabemos, tem seu ciclo. É curta. É inesperada. É uma aventura. Por isso, é preciso vivê-la com zelo, carinho, discernimento, amor... Como um dia me ensinou o “vô” Sebastião: “O segredo para uma vida longa é viver uma vida justa e sensata”. Ali, naquele sofá, conversávamos sobre os ensinamentos que ele nos deixou. Estávamos gratos pelos 109 anos que ele viveu. Íamos nos lembrando de quantas vezes ele nos contou sobre as guerras que vivenciou; sobre o quanto sua juventude foi dura, sobretudo por ser ele negro e de poucas finanças. Mas a prosperidade veio e Deus o compensou com uma família numerosa e amigos verdadeiros. Em especial, deu-lhe um filho que foi seu companheiro em toda a sua trajetória. Um filho que foi seu companheiro de todas as horas. As tardes eram redesenhadas com o pôr-do-sol e as pegadas daqueles dois na caminhadinha vagarosa de um idoso, que se tornou centenário. Depois, os passos foram amiudando, então, o pai passou a caminhar somente no corredor, cerca de 200 metros. Mingou ainda mais, e a caminhada ficou restrita à casa. Já a cabeça carregava a lucidez e os sonhos de uma vida inteira. Mas, neste 8 de setembro, o domingo amanheceu cinzento. E o sentinela dos Moreira precisou viajar para um mundo novo, ainda desconhecido por nós.

Até parece que ali havia um diálogo entre os dois. O filho dizia: “Tua caminhada ainda não terminou. / A realidade te acolhe / dizendo que pela frente / o horizonte da vida necessita / de tuas palavras / e do teu silêncio. (Charles Chaplin) E o pai respondia: “Se amanhã sentires saudades, lembra-te da fantasia e sonha com tua próxima vitória. Vitória que todas as armas do mundo jamais conseguirão obter, porque é uma vitória que surge da paz e não do ressentimento.” (Charles Chaplin).

Pessoas assim deixam muita saudade. Vamos nos enroscando nas memórias, desfiando causos e arrematando amizades.

Naquela sala, o vazio da saudade atravessava nossa conversa, e um espaço de tempo dava lugar ao silêncio, que narrava toda a dor que sentíamos naquela hora; até que uma nova lembrança vinha enxotando o silêncio e preenchendo o vazio, enchendo o espaço de alegria e gratidão. Aquela conversa parecia o movimento de um pulmão no exercício do respirar: enche e esvazia; esvazia e enche. É o vaivém da vida, lembrando que aqui somos apenas passageiros.

Como escreve Fontana (1998, p. 267), na obra “História: análise do passado e projeto social”: “A história de um grupo humano é a sua memória coletiva e cumpre a respeito dele a mesma função que a memória pessoal num indivíduo: a de dar-lhe um sentido de identidade que o faz ser ele mesmo e não outro”. Pensando assim, creio que aquela família vem fazendo jus à sua identidade e, sem dúvida, o “vô” Sebastião deu sentido à memória que deixou. Daí a razão de conversas embargadas e tantos olhos rasos d’água. Mesmo compreendendo a nossa limitação existencial, mesmo sendo gratos pela longevidade que ele teve, pensar em sua ausência era doído. O para sempre é demorado e nunca sai de cena sem deixar marcas.

Era chegada a hora do adeus. Despedimo-nos e seguimos em frente.

Ao entrar no carro, sintonizei o rádio e lá estava Luiz Ayrão, cantando “O Lencinho”, da saudade que ficou. O samba diz assim: “Aquele lencinho que você deixou / É um pedacinho da saudade que ficou / (aquele lencinho) Aquele lencinho que você deixou / É um pedacinho da saudade que ficou / Era a felicidade que acenava pra mim / Hoje é bandeira da saudade / Banhada num pranto sem fim / Um lencinho não dá pra enxugar / O rio de lágrimas que eu tenho pra chorar / Que nasce na saudade que ficou no seu lugar / Que nasce na saudade que ficou no seu lugar / Um lencinho não dá pra enxugar...

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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