08/09/2019 às 08h00min - Atualizada em 08/09/2019 às 08h00min

Em defesa do que eu sou

ALEXANDRE HENRY

Fernando Schüler, professor do Insper e curador do projeto Fronteiras do Pensamento, publicou outro dia um texto sobre as pessoas moderadas, referindo-se àquelas que se encontram fora de radicalismos ideológicos. Disse ele: "Moderados, nos dias que correm, não gozam lá de grande conceito. Na era da guerra cultural, eles tentam (...) incorporar, pacientemente, uma visão plural de mundo e diferenciar a política da crença, sabendo que também a ideologia pode ser um tipo, por vezes mais perverso, de religião. Moderados não gozam lá de grande prestígio porque são frequentemente confundidos com o centrismo político, ou ao menos sua caricatura. O tipo sem opinião, ou sempre disposto a negociar a sua opinião.".

Você já deve estar cansado de ouvir falar em polarização, mas tenho que voltar ao assunto porque realmente tem tudo a ver com o que Fernando Schüler escreveu. O achatamento da classe média em praticamente todos os países do mundo, bem como a liberdade de expressão dada pela internet e as bolhas criadas pelas redes sociais, tudo isso acabou por contribuir para a condução de boa parte da população para os polos do pensamento humano e para uma situação de incapacidade de aceitação de ideias divergentes. Faz muito tempo que eu luto para não ser levado por essa correnteza, tentando me manter afastado de qualquer radicalismo político, comportamental e por aí afora. Porém, não é uma tarefa fácil. Primeiro, porque você acaba inundado por opiniões e ações de pessoas ao seu redor que agem de maneira polarizada e, em certo momento, é natural que você se pergunte se realmente você está certo em seu jeito de pensar, de ser e de agir. Mas, mais do que isso, a grande dificuldade é sobreviver a uma enxurrada de críticas daqueles que não conseguem enxergar o mundo para além do preto e do branco.

Eu nunca esqueço uma postagem que fiz em uma rede social, dois ou três anos atrás. Em minha tentativa de manter olhos e ouvidos abertos para todas as opiniões, geralmente não excluo da minha rede pessoas radicais, não importa o lado em que estejam. Nos comentários daquela postagem, apareceram dois desses meus contatos virtuais, sendo que um deles era claramente de esquerda e o outro era um confesso radical de direita. Pois não é que o radical de esquerda me chamou de coxinha e o radical de direita me chamou de mortadela, tudo por conta da mesma postagem e em comentários seguidos?! Eu achei aquilo tão inusitado que, na sequência dos comentários deles, pedi aos dois para entrarem em acordo e me dizerem o que realmente eu era. Esse singelo episódio reflete muito bem a incapacidade da maioria das pessoas que estão em polos ideológicos de enxergar, como eu disse, tudo aquilo que não seja preto ou branco. Se aparece algo que seja azul, verde, vermelho ou de qualquer outra cor, a pessoa fica bastante confusa e a única solução que visualiza é tentar enquadrar aquela cor em algum tom de branco ou preto, por mais que isso seja irracional. Mas, que racionalidade existe na radicalidade?

Pior do que isso, como bem lembrou Fernando Schüler, gente como eu, que tem certo apreço relevante pela moderação e pela ponderação, frequentemente leva a etiqueta de "sem opinião", de sujeito "em cima do muro", de "folha de bananeira" e coisas do gênero.

Difícil conviver com essas qualificações pejorativas, mas é preciso, até porque elas não refletem a verdade. Se você me perguntar, sou um árduo defensor do direito de cada um viver a sua sexualidade como bem entender. Em regra, sou um liberal nos costumes, quase próximo do pensamento da maioria dos "radicais de esquerda", embora esteja atento para as opiniões contrárias. De outro lado, costumo defender pautas econômicas que estão mais associadas à turma da direita, algumas delas bem à direita. Em resumo, nada de ficar em cima do muro: a ideia é transitar entre os dois lados procurando o caminho mais produtivo e positivo.

Termino com as palavras de Schüler para defender essa minha opção. Segundo ele, os moderados, a quem eu prefiro chamar de ponderados, tentam incorporar "uma visão plural de mundo e diferenciar a política da crença, sabendo que também a ideologia pode ser um tipo, por vezes mais perverso, de religião. Um moderado pode defender posições liberais ou socialistas, não é esse o ponto. Sua marca é recusar a posição de dono da verdade. (...) O moderado é o sujeito que não tem medo de lidar com os fatos inconvenientes que podem afetar suas próprias posições .

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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