07/09/2019 às 08h15min - Atualizada em 07/09/2019 às 08h15min

“Fake news” da Independência

ANTONIO CARLOS DE OLIVEIRA

Hoje, como em todos os dias 7 de setembro desde 1822, comemora-se a emancipação brasileira do reino de Portugal. A Independência do Brasil não aconteceu repentinamente, e o que muitos cidadãos não sabem é que ela também não ocorreu naquela manhã do dia sete, com o grito de Dom Pedro I às margens do rio Ipiranga. Historicamente, o fato envolve uma gama de desdobramentos.

Em 1808, antes do Grito da Independência, a família real portuguesa chegava ao Brasil trazendo um avanço diplomático para nosso país. A partir da abertura dos portos, o comércio fortaleceu e nossa situação econômica clamava por autonomia.  A própria corte portuguesa já previa esse movimento separatista da colônia, pois sabia que era impossível frear o progresso da futura nação.

Há documentos históricos que relatam diálogos entre Dom João VI e seu filho, onde dizia a Pedro que gostaria de vê-lo como o imperador do Brasil, para que o país continuasse sob comando de um membro da família real de Bragança. A permanência da Coroa portuguesa em terras brasileiras foi fundamental para que expandíssemos a liberdade política conquistada em um reino unificado.

Todavia, Portugal passou a sinalizar que não daria a emancipação para a sua colônia, com intuito de postergar a subserviência brasileira. Esse contradizer português não agradou a aristocracia local, que contava com o apoio de Dom Pedro – príncipe regente do Brasil. Em 9 de janeiro de 1822, Pedro recebeu uma carta intimando seu retorno à Lisboa. Sua desobediência à Coroa portuguesa é conhecida como o Dia do Fico.

Para alguns historiadores, o Dia do Fico é uma das datas em que a Independência pode ter sido “declarada”. Outros dias possíveis são: 12 de outubro, data da Aclamação de Dom Pedro I como Imperador do Brasil ou 1º de dezembro, dia da sua coroação no Rio de Janeiro. Porém, setembro de 1822 foi um mês de intensos movimentos políticos para conseguir apoio ao novo Imperador.

Nessa época, os aristocratas brasileiros ainda não chegavam a um consenso quanto ao formato de governo que o futuro país independente teria. As opiniões dos “monarquistas” e liberais republicanos eram divergentes. Dom Pedro I possuía nas mãos uma nação com interesses conflitantes. Além disso, sua base aliada concentrava-se apenas na região sudeste.

Então, a história da nossa Independência é uma fraude? Sim e não. O dia 7 de setembro é uma data desleal, porque não representa, de fato, o dia da ruptura entre Brasil e Portugal. Mesmo simbólica, ela é coerente ao contexto da época, onde o país precisava criar o seu patriotismo – e a fábula da saga de Dom Pedro I foi fundamental para a construção da nossa identidade nacional.

Prova disto é o quadro “Independência ou Morte”, do pintor brasileiro Pedro Américo, encomendado por Dom Pedro II em 1885, e finalizado em 1888 – 66 anos após a proclamação da Independência. A obra é um registro histórico importante, mas seu real objetivo era gravar uma representação épica do fato na memória brasileira, evidenciando o heroísmo de Dom Pedro I.

Os mitos na narrativa da Independência vão desde a forte diarreia que dom Pedro enfrentava durante a viagem, até as questões reducionistas da falsa data. Fato é que a emancipação brasileira levou anos para se desenvolver, e foi motivada pelos interesses econômicos das elites de Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais. Para a maior parte da população, a Independência do Brasil foi irrelevante.

A autonomia perante Portugal não mudou o dia a dia do cidadão “comum”, uma vez que muitos deles nem ficaram sabendo que ela ocorreu. Essa concepção de país enquanto nação demandou tempo até desbravar os quatro cantos do território. Além disso, havia portugueses insatisfeitos com a independência da colônia, ocasionando em conflitos e mortes em todas as regiões do Brasil.

Pensando estrategicamente...  há quem diga que o brado retumbante de “Independência ou Morte” de fato nunca aconteceu às margens plácidas. Pelo menos não desse jeito. A célebre frase é realmente de autoria de Dom Pedro I, mas foi dita em cartas enviadas a outras províncias, com um discurso mais encorpado, que buscava inflamar o nacionalismo e conseguir apoio político para o seu governo.

O Brasil ainda conserva alguns modelos herdados da Família Real, principalmente no que tange à economia e à estruturação da sociedade. Em contrapartida, esse falso heroísmo, que nos foi empurrado goela abaixo, pode ser contestado e difundido na atualidade. Nossa história comprova que não é de hoje que sofremos com fatos criados conforme as conveniências e os interesses.

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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