08/09/2019 às 07h30min - Atualizada em 08/09/2019 às 07h30min

O excessivo culto ao eu

KELLY BASTOS (DUDI)

Bom dia, gente!

Já ouviram falar na expressão que “a pessoa vive dentro da bolha?

A bolha é um mundinho em que certos indivíduos têm uma preocupação, exagerada, só com seu prazer, imagem e ganhos pessoais. É dentro dessa bolha social que alguns acreditam que são mais importantes do que outrem.

Segundo a nossa consultora, Eliana Alves Pereira, psicóloga, “podemos comparar a bolha como uma redoma, que é um recipiente de vidro em forma de curva para resguardar objetos delicados da poeira e ar. Por isso, que a expressão “meter-se em uma redoma” significa proteger-se excessivamente. No lado de dentro da redoma o espaço é limpo e puro, mas do lado de fora é sujo e poluído”.
E mais: “os que vivem nas bolhas têm a certeza de que seu estilo de vida e círculo social é asséptico, e ali exigem total atenção, mas desprezam o bem-estar dos outros. Eles se fecham no interior da redoma, para sentirem-se admirados pelos de fora. Essas bolhas mostram o excessivo culto ao eu: meu clã, minha praia, etc.”

A psicóloga cita o exemplo de moradores de um bairro de João Pessoa querem proibir pessoas com deficiências de irem à praia, com alegação que “essa gente” tira a beleza do bairro. E uma autoridade de Porto Alegre disse que é preciso tirar os moradores de rua para as pessoas passearem com seus pets, como se morar na rua fosse um privilégio. “A criação de bolhas, mesmo que algumas não passem de estratégias mediáticas, estimulam comportamentos egoístas”, diz a psicóloga.

É neste contexto que se consomem cada vez mais tranquilizantes e antidepressivos, que propiciam alívio, mas contribuem para o padecimento das relações humanas. No entanto, para modificar essa realidade é necessário perceber que existem outros mundos, além das bolhas.

E a melhor maneira de superar o preconceito é conviver com o diferente, aprendendo como os demais pensam e estar aberto para mudar de ideias e atitudes.

Então, não devemos aplaudir as condutas que nutrem a egolatria. Contudo, se fizermos isso, de acordo com o sociólogo Zygmunt Bauman, voltamos à tribo, ao seio materno, ao mundo cruel descrito por Hobbes, na qual o outro é uma ameaça, e a solidariedade parece uma espécie de armadilha traiçoeira ao ingênuo, ao incrédulo, ao tolo e ao frívolo.

Sabemos que nenhum ser humano é perfeito, mesmo incluso na sua redoma. Porém, devemos nos respeitar uns aos outros, porque não vivemos sozinhos neste mundo, de 7,7 bilhões de habitantes e num Brasil, de 210,1 milhões de gente de todas as diferenças físicas, culturais, étnicas, credos e classes.

Assim, precisamos aceitar que o Universo é complexo e infinito, e que temos a chance de preservar a boniteza do mundo. Infelizmente, existem pessoas que são tão “pobres”, que a única coisa que têm é dinheiro, mas sentem um grande vazio existencial.
Portanto, podemos trabalhar juntos por um mundo melhor, todavia se estivermos fechados em bolhas sociais ficaremos isolados, que nos prejudicará como seres humanos. E nos adverte Bauman: “Estamos em uma situação de verdadeiro dilema: ou damos as mãos ou nos juntamos ao cortejo fúnebre do nosso próprio enterro em uma mesma e colossal vala comum.”

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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