06/09/2019 às 08h34min - Atualizada em 06/09/2019 às 08h34min

Construção coletiva do futuro da cidade

RENATO REZENDE | CONSULTOR ESPECIALIZADO EM DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E MUNICIPALISMO

Estima-se que a população urbana quase duplique até 2050 (dados da ONU Habitat), isso reforça ainda mais o desafio das cidades, uma vez que junto a esse crescimento aparecem os desafios urbanísticos, as novas atividades econômicas, os novos tipos de interação social e cultural.

Ainda assim, neste cenário global de constantes transformações, nosso país se encontra míope, focado em questões práticas de curto prazo, suportado por fontes escassas de financiamento e em um modelo de gestão pública em recuperação de um colapso conceitual – visualizamos os municípios carentes de respostas para as “Novas Perguntas” que o futuro sustentável faz para as cidades.

As cidades são as plataformas onde o resultado de todas decisões políticas e sociais são impactadas. O Desenvolvimento Econômico atual exige o crescimento dos níveis de cooperação e confiança entre a sociedade e o poder público. A coesão de lideranças empresariais veio à tona por todo o país, municípios se organizam em redes, consórcios e associações por uma inevitável necessidade de suprir a ineficiência da velha e burocrática máquina pública. Tardam-se aqueles que insistem em qualificar territórios por seus indivíduos isolados – a nova economia não tem ídolos, segue princípios de cooperação, respeita vocações e age com propósitos sustentados em planos de longo prazo.

Como consequência da crise e o fim do governo provedor e gestor de recursos e, em especial, pela forma estática e lenta provocada pelo modo gerencial que os governantes encaravam os desafios, nascem novas formas de interação com o estruturado e lento arcabouço público: a implantação de conselhos e câmaras temáticas que reúnem empresários, academia, setor público e sociedade civil.

É preciso que existam canais de participação sob a responsabilidade de todos, porque a cidade é uma construção coletiva cujo resultado depende das ações e interações de todos os cidadãos. O desenvolvimento e a capacidade de inovação de uma cidade dependem da densidade e diversidades dessas interações.

Como exemplo, em meados de 2014, a Câmara Brasileira da Industria da Construção (CBIC) lançou o programa “O Futuro da Minha Cidade”, inspirado no modelo participativo de Maringá (PR), o Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (Codem), e desde então já sensibilizou mais de 20 cidades que passam pelo processo de engajamento e formalização dos conselhos de desenvolvimento econômico.

Manaus (AM) é o exemplo de uma cidade que aderiu ao movimento por uma necessidade premente: o fim dos incentivos fiscais à Zona Franca de Manaus. Brasília instituiu seu conselho que atua como um forte aliado à gestão pública local; em 2018, forneceu importante documento baseado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que se tornou fonte para construção dos planos de governo dos candidatos na última eleição distrital e participa oficialmente e ativamente das decisões do atual governador.

Por ser propositivo e público, a formatação de conselhos de Desenvolvimento Econômico Sustentável soa como alternativa para uma cultura empreendedora e harmônica com as capacidades locais. No Triângulo Mineiro, Uberlândia e Tupaciguara possuem seus próprios conselhos de desenvolvimento econômico – em um primeiro olhar, o principal desafio pode ser a falida gestão municipal, porém sem crucificar o setor público ou privado, o principal desafio ainda está no comportamento individual.

É absoluta a ideia de que o homem consciente de si e do meio em que vive passa a se sentir parte e naturalmente responsável por sua participação no contexto evolutivo coletivo. Assim é para o homem, para setores econômicos, cidades, nações...

Parece raso falar sobre desenvolvimento econômico a partir de olhar comportamental, sem citar palavras de impacto em inglês, sem abordar novas metodologias ou gurus da administração moderna – mas as principais nações se reinventaram por comportamentos coletivos, sustentáveis e harmônicos a propósitos claros e transformadores.

Sabemos nosso papel? Sabemos onde queremos chegar? Estamos realmente dispostos?

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.
 
 
 

 
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