30/08/2019 às 08h00min - Atualizada em 30/08/2019 às 08h00min

Você sabia que no Brasil temos um Dia Nacional do Perdão?

ISABELLA CONTINO DE AZEVEDO | PSICÓLOGA

Em 2017 foi sancionada a lei 13.437/17 que institui o Dia Nacional do Perdão, comemorado no Brasil neste 30 de agosto. E talvez você se pergunte: Para que ter um dia dedicado ao perdão? De onde surgiu esta ideia? Qual a motivação e efetividade desta lei?  Bom, para entender um pouco da motivação desta lei, preciso primeiro citar o nome da autora do texto do projeto de lei PLC 31/2015, a deputada federal Keiko Ota (PSB-SP), que justifica como objetivo propor uma reflexão sobre o tema, além de ressaltar a luta de diversos movimentos sociais e parentes por justiça. Recorrendo a um fato que aconteceu em agosto de 1997, talvez fique mais clara a motivação de tal lei. Provavelmente muitos se lembrarão deste nome: Ives Ota.

Ives Ota, aos 8 anos, foi sequestrado em casa, na zona leste de São Paulo, e por ter reconhecido um dos homens, que fazia bico como segurança em uma loja da família, o garoto foi morto na madrugada do dia seguinte. Mesmo após a execução, o grupo continuou negociando o resgate. Os três envolvidos no caso foram condenados. Fundou-se, então, em setembro de 1997, o Movimento da Paz e Justiça Ives Ota, uma ONG sem sectarismo religioso com objetivo de estender-se a todos os interessados numa sociedade pacífica, onde cada um se conscientize de que: somente através do perdão a verdadeira paz se instala em sua vida. Masataka Ota, pai de Ives, em uma entrevista no ano de 2001 afirmou: “Acho que perdoar não é dizer: Soltem os assassinos de meu filho. Perdoar é tirar o ódio de dentro de você. Então, perdão é uma coisa e justiça é outra. A justiça tem de ser cumprida.” E é a partir desta fala que iniciarei aqui minha reflexão sobre o poder do perdão.

Nós, seres humanos, podemos ter dificuldades para perdoar e assim acabamos presos às lembranças que nos causam sofrimento e, por isso, sentimos dores que se expressam de alguma forma, seja no corpo, ou na mente. Trabalhar o perdão significa resgatar o bem-estar subjetivo do indivíduo, livrando-se da dor causada pelos sofrimentos e liberando-se para promover melhor qualidade de vida. Digo qualidade de vida, pois já é sabido que o perdão está associado com benefícios físicos e psicológicos; e que depressão, dores musculares, dores de cabeça, ansiedade, gastrite, úlceras, problemas cardiovasculares, doenças alérgicas, podem estar relacionadas às dificuldades de perdoar.

Parece estranho, mas vamos compreender melhor o perdão tendo a noção justamente do que o perdão não é. O perdão não é aceitar a ofensa e tampouco concordar com a atitude do transgressor. E o principal, o perdão não é uma forma de evitar que o transgressor seja punido.  Podemos perdoar alguém e mesmo assim concluir que o que o outro fez não foi justo e ele deve ser punido na esfera jurídica se for o caso. Perdoar não é esquecer, pois você pode se lembrar mesmo após ter perdoado, mas terá cessado o ressentimento em relação ao fato ou a pessoa. Ao se perdoar, não é preciso se reconciliar com o outro, conviver com ele.
O indivíduo que compreender o que é o perdão estará se livrando de um fardo desnecessário que poderia se arrastar por toda sua existência. Perdoar é algo que você faz por si próprio e não pela pessoa que o ofendeu. Abrir mão de emoções negativas que te fazem sentir mal está no centro da questão do perdão, e não sua relação com o outro que causou o desconforto.

Perdoar é uma escolha consciente. E acredite, o perdão não é um atributo divino, é um atributo humano, é uma decisão que você usa sua razão, do seu cognitivo. Se você decide trocar seu pensamento, ressignificar, você se desvincula daquelas emoções que te incomodam. E isso não precisa ser simples, pode sim levar um tempo, e exigir certo empenho. 

Lembre-se, perdoar não é sobre o outro, é sobre você!

*O conteúdo desta coluna é de responsabilidade do autor e não representa, necessariamente, a opinião do Diário de Uberlândia.

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